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Henrique Carvalho  Alquimia da Mente ED 257

Quarenta anos de carreira e 98% de erro: a conta de Martin Short

Ele chamou a própria taxa de fracasso de ótima chance, e o número explica por que a quinta edição fraca não significa nada.

Quarenta anos de carreira e 98% de erro: a conta de Martin Short

Pilha de roteiros recusados sobre uma mesa acesa

 

Em 1997, na Psychological Review, Dean Keith Simonton, da Universidade da Califórnia em Davis, analisou a carreira inteira de centenas de cientistas, compositores e escritores e encontrou a mesma proporção em todos eles: a taxa de acerto por obra não melhora com a experiência. Quem assinou mais obras memoráveis assinou também mais fracassos, na mesma cadência, do começo ao fim da vida produtiva.

Segure o achado por um segundo, porque ele contraria a expectativa de qualquer pessoa que começou um projeto novo esta semana. A intuição diz que o veterano erra menos. A medição diz que o veterano erra tanto quanto, só que sobre um número de tentativas muito maior.

Martin Short atravessou quarenta anos de carreira e uma pilha de filmes que não deram certo. Quando um comediante jovem foi pedir conselho a ele, a resposta veio como aritmética, sem consolo nenhum: neste ramo você erra 98% das vezes, e essa é uma ótima chance.

Leia a segunda metade da frase de novo. Um homem com quatro décadas de estrada chama uma taxa de 2% de ótima. Ele não está sendo modesto nem engraçado. Está dizendo que a conta é conhecida, que ninguém a evita e que a estratégia inteira do ofício depende de aceitar a proporção antes de começar.

Agora a cena que interessa. Um criador publica a primeira edição, a segunda, a terceira. Na quarta, a abertura cai. Na quinta, sai um texto morno que ele mesmo detesta ao reler. E ali, na noite da quinta edição fraca, ele decide que a evidência já é suficiente.

Cinco tentativas. Com a proporção de Simonton e de Short em mãos, cinco tentativas nem sequer constituem uma amostra. O criador que para na quinta encerrou o experimento antes da primeira medição válida, e nunca chegou às duas peças em cada cem que reposicionam uma trajetória inteira.

Hoje eu te mostro por que a taxa de acerto é teimosa, o que separa o fracasso que ensina do fracasso que só dói, e qual variável do jogo continua na sua mão.

Continue lendo. ↓

 
 
 
 

I  O Que Eu Vi

A taxa fica parada, o volume é que se mexe

 

Simonton batizou o achado de regra das chances iguais. Dentro da obra de um mesmo criador, a probabilidade de uma peça qualquer virar um marco permanece aproximadamente constante ao longo da carreira. Bach na juventude e Bach na maturidade acertavam na mesma proporção.

O que muda com os anos é o denominador. O criador experiente coloca cem peças no mundo por década; o iniciante coloca cinco. Ambos acertam na mesma fração, e apenas um deles tem massa suficiente pra que a fração produza algo visível.

A consequência prática é desconfortável e libertadora ao mesmo tempo. Você não vai ficar bom o bastante pra parar de errar. Ninguém fica. Bowie gravou álbuns que a própria gravadora preferiu esquecer depois de ter escrito Heroes. Spielberg dirigiu fracassos de bilheteria com o Oscar já na estante.

“Os criadores mais bem-sucedidos tendem a ser aqueles com o maior número de fracassos.”

Dean Keith Simonton · Origins of Genius, 1999

 

Repare no que a frase faz com a leitura comum de currículo. Quando alguém apresenta um artista pelos cinco trabalhos que deram certo, a apresentação omite as duzentas tentativas que produziram os cinco. A omissão não é desonestidade: é edição. Ninguém abre a palestra listando o que fracassou.

O criador iniciante recebe apenas a versão editada e calcula a própria média contra ela. Ele compara cinco edições cruas com uma seleção de trinta anos de acertos alheios, conclui que está muito abaixo e desliga o experimento com a amostra ainda cabendo na palma da mão.

Cinco tentativas não medem talento. Medem apenas que você tentou cinco vezes.

 
 
 

II  O Mecanismo

O que separa a tentativa que ensina da que só dói

 

Aceitar a proporção não transforma qualquer fracasso em aprendizado automático. Existe um fracasso que alimenta a carreira e outro que apenas consome o ânimo, e a distinção é operacional.

O fracasso que ensina tem três marcas. Foi publicado, foi medido e variou de propósito em relação ao anterior. O que apenas dói costuma faltar nas três: ficou na gaveta, saiu sem nenhum número anotado e repetiu a fórmula da peça passada esperando resultado diferente.

Publicar é o requisito duro. Peça não publicada não gera informação nenhuma sobre o mundo real, gera apenas opinião sua sobre si mesma. O julgamento que você faz do próprio texto às onze da noite tem correlação baixíssima com o julgamento do leitor às seis da manhã, e todo escritor que já enviou algo relutante e viu a peça performar bem conhece a lacuna.

Medir é o segundo requisito, e ele exige combinar antes qual número importa. Abertura, cliques, respostas na caixa, cancelamentos. Sem definir o critério de antemão, a leitura vira humor: dia bom, a edição foi ótima; dia ruim, a mesma edição foi fraca.

Variar é o terceiro. Cinco edições com a mesma abertura, o mesmo tamanho e o mesmo assunto entregam uma tentativa repetida cinco vezes. Cinco edições que alteram uma variável por vez entregam cinco tentativas de verdade, e a segunda série ensina cinco vezes mais que a primeira.

Anotar fecha o circuito. Uma linha por edição, com a data, a variável alterada e o número escolhido, transforma uma sequência de sensações num registro consultável. Sem o registro, o criador refaz no mês seis um teste que já tinha rodado no mês dois e não lembra do resultado.

Nota do HC

Eu já publiquei mais de duzentas edições desta newsletter e mantenho uma pasta com as que considero fracas. Duas delas estão entre as mais lidas do ano, o que me obrigou a aceitar um fato chato: eu sou um péssimo juiz da minha própria peça antes do envio. Por causa da pasta, a minha regra virou publicar tudo que cumpre o padrão mínimo e deixar o julgamento final com o leitor.

 

Short passou quatro décadas coletando as três marcas em escala industrial. Cada filme que não deu certo foi lançado, teve bilheteria pública e ocupou um lugar diferente na carreira dele. As duas em cada cem que funcionaram não apareceram por sorte pura: apareceram porque havia cem no mercado, cada uma testando algo distinto.

A tentativa que não sai da gaveta não conta como tentativa. Ela conta como ensaio para uma estreia que nunca acontece.

 

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III  O Que Eu Faria

A alavanca que continua na sua mão

 
Henrique Carvalho

O piano antes da edição, ritual de todo dia

 

Se a taxa de acerto é teimosa, sobra uma alavanca. Você controla quantas peças entram no mundo e por quanto tempo você aguenta manter a série viva.

Faça a aritmética com números pequenos. A 2% de acerto, cinco edições entregam uma expectativa de zero peças relevantes. Cinquenta edições entregam uma. Duzentas entregam quatro. Nenhum desses saltos exige que você escreva melhor: exige apenas que você continue escrevendo enquanto a maioria interrompe.

Repare na natureza da alavanca: nenhuma parte dela depende de terceiro. Você não controla o gosto do leitor, o horário em que ele abre a caixa, o filtro do provedor nem o assunto que estará em alta em novembro. Você controla se existe uma peça pronta no dia combinado, e a lista inteira do que não controla fica irrelevante quando a peça não existe.

O tempo médio de desistência de quem começa uma newsletter é curto o bastante pra ser vantagem de quem fica. A concorrência real de um criador no ano dois não são os milhares que começaram junto com ele, e sim as poucas dezenas que ainda estavam publicando no mês oito.

Existe uma condição pra que o volume funcione, e ela é honesta. Volume sem padrão mínimo apenas acelera a produção de peças ruins. Defina o seu piso em três itens verificáveis: um assunto que interessa a você, uma tese que cabe numa frase e uma ação que o leitor consegue executar. Peça que cumpre os três vai pro ar mesmo que você a considere mediana.

A edição fraca também tem função dentro da série. Ela mostra o que cansa o leitor, revela qual formato não sustenta a leitura e libera espaço pra tentativa seguinte. Um criador que publica cem peças por ano e detesta trinta delas termina o ano com trinta informações que ninguém no mercado tem sobre o público dele.

Há um efeito de composição que aparece só na segunda metade da série. Quanto mais peças publicadas, maior a superfície de descoberta: mais páginas indexadas, mais material pra compartilhar, mais chance de alguém encontrar uma peça antiga e assinar. As duas em cada cem continuam sendo duas, e o alcance delas cresce com o tamanho do arquivo por trás.

Short deu o conselho como quem entrega uma ferramenta, e a ferramenta serve para qualquer ofício em que o produto seja julgado por outra pessoa. A taxa de erro é alta pra todo mundo, inclusive pra quem você admira. A escolha disponível é permanecer no jogo tempo suficiente pra que a fração se manifeste.

A quinta edição fraca, portanto, não carrega informação sobre o seu futuro. Ela carrega informação sobre a quinta edição, e só.

Nas próximas 24 horas: abra a sua lista de peças publicadas, conte quantas existem e escreva o número num papel. Se for menos de cinquenta, agende as três próximas com data e horário no calendário, agora, e publique a primeira delas amanhã.

 

“As duas em cada cem só aparecem para quem colocou as cem no mundo.”

Henrique Carvalho

Forte abraço,

Henrique Carvalho

🎹 Escrevi esta edição ouvindo Intro, no piano.

 

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🧠 Quiz da edição

Segundo a regra das chances iguais de Dean Keith Simonton, o que acontece com a taxa de acerto de um criador ao longo da carreira?

ASobe de forma constante com a experiência
BPermanece aproximadamente a mesma
CCai depois do primeiro grande sucesso
DDepende exclusivamente do talento inicial

Resultado da última edição: 57% acertaram.

Defenda seu título de Alquimista (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

 
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Como foi a edição de hoje?

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