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Quarenta anos de carreira e 98% de erro: a conta de Martin Short
Ele chamou a própria taxa de fracasso de ótima chance, e o número explica por que a quinta edição fraca não significa nada.
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Pilha de roteiros recusados sobre uma mesa acesa
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Em 1997, na Psychological Review, Dean Keith Simonton, da Universidade da Califórnia em Davis, analisou a carreira inteira de centenas de cientistas, compositores e escritores e encontrou a mesma proporção em todos eles: a taxa de acerto por obra não melhora com a experiência. Quem assinou mais obras memoráveis assinou também mais fracassos, na mesma cadência, do começo ao fim da vida produtiva.
Segure o achado por um segundo, porque ele contraria a expectativa de qualquer pessoa que começou um projeto novo esta semana. A intuição diz que o veterano erra menos. A medição diz que o veterano erra tanto quanto, só que sobre um número de tentativas muito maior.
Martin Short atravessou quarenta anos de carreira e uma pilha de filmes que não deram certo. Quando um comediante jovem foi pedir conselho a ele, a resposta veio como aritmética, sem consolo nenhum: neste ramo você erra 98% das vezes, e essa é uma ótima chance.
Leia a segunda metade da frase de novo. Um homem com quatro décadas de estrada chama uma taxa de 2% de ótima. Ele não está sendo modesto nem engraçado. Está dizendo que a conta é conhecida, que ninguém a evita e que a estratégia inteira do ofício depende de aceitar a proporção antes de começar.
Agora a cena que interessa. Um criador publica a primeira edição, a segunda, a terceira. Na quarta, a abertura cai. Na quinta, sai um texto morno que ele mesmo detesta ao reler. E ali, na noite da quinta edição fraca, ele decide que a evidência já é suficiente.
Cinco tentativas. Com a proporção de Simonton e de Short em mãos, cinco tentativas nem sequer constituem uma amostra. O criador que para na quinta encerrou o experimento antes da primeira medição válida, e nunca chegou às duas peças em cada cem que reposicionam uma trajetória inteira.
Hoje eu te mostro por que a taxa de acerto é teimosa, o que separa o fracasso que ensina do fracasso que só dói, e qual variável do jogo continua na sua mão.
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I O Que Eu Vi
A taxa fica parada, o volume é que se mexe
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Simonton batizou o achado de regra das chances iguais. Dentro da obra de um mesmo criador, a probabilidade de uma peça qualquer virar um marco permanece aproximadamente constante ao longo da carreira. Bach na juventude e Bach na maturidade acertavam na mesma proporção.
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O que muda com os anos é o denominador. O criador experiente coloca cem peças no mundo por década; o iniciante coloca cinco. Ambos acertam na mesma fração, e apenas um deles tem massa suficiente pra que a fração produza algo visível.
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A consequência prática é desconfortável e libertadora ao mesmo tempo. Você não vai ficar bom o bastante pra parar de errar. Ninguém fica. Bowie gravou álbuns que a própria gravadora preferiu esquecer depois de ter escrito Heroes. Spielberg dirigiu fracassos de bilheteria com o Oscar já na estante.
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“Os criadores mais bem-sucedidos tendem a ser aqueles com o maior número de fracassos.”
Dean Keith Simonton · Origins of Genius, 1999
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Repare no que a frase faz com a leitura comum de currículo. Quando alguém apresenta um artista pelos cinco trabalhos que deram certo, a apresentação omite as duzentas tentativas que produziram os cinco. A omissão não é desonestidade: é edição. Ninguém abre a palestra listando o que fracassou.
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O criador iniciante recebe apenas a versão editada e calcula a própria média contra ela. Ele compara cinco edições cruas com uma seleção de trinta anos de acertos alheios, conclui que está muito abaixo e desliga o experimento com a amostra ainda cabendo na palma da mão.
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Cinco tentativas não medem talento. Medem apenas que você tentou cinco vezes.
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II O Mecanismo
O que separa a tentativa que ensina da que só dói
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Aceitar a proporção não transforma qualquer fracasso em aprendizado automático. Existe um fracasso que alimenta a carreira e outro que apenas consome o ânimo, e a distinção é operacional.
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O fracasso que ensina tem três marcas. Foi publicado, foi medido e variou de propósito em relação ao anterior. O que apenas dói costuma faltar nas três: ficou na gaveta, saiu sem nenhum número anotado e repetiu a fórmula da peça passada esperando resultado diferente.
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Publicar é o requisito duro. Peça não publicada não gera informação nenhuma sobre o mundo real, gera apenas opinião sua sobre si mesma. O julgamento que você faz do próprio texto às onze da noite tem correlação baixíssima com o julgamento do leitor às seis da manhã, e todo escritor que já enviou algo relutante e viu a peça performar bem conhece a lacuna.
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Medir é o segundo requisito, e ele exige combinar antes qual número importa. Abertura, cliques, respostas na caixa, cancelamentos. Sem definir o critério de antemão, a leitura vira humor: dia bom, a edição foi ótima; dia ruim, a mesma edição foi fraca.
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Variar é o terceiro. Cinco edições com a mesma abertura, o mesmo tamanho e o mesmo assunto entregam uma tentativa repetida cinco vezes. Cinco edições que alteram uma variável por vez entregam cinco tentativas de verdade, e a segunda série ensina cinco vezes mais que a primeira.
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Anotar fecha o circuito. Uma linha por edição, com a data, a variável alterada e o número escolhido, transforma uma sequência de sensações num registro consultável. Sem o registro, o criador refaz no mês seis um teste que já tinha rodado no mês dois e não lembra do resultado.
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Nota do HC
Eu já publiquei mais de duzentas edições desta newsletter e mantenho uma pasta com as que considero fracas. Duas delas estão entre as mais lidas do ano, o que me obrigou a aceitar um fato chato: eu sou um péssimo juiz da minha própria peça antes do envio. Por causa da pasta, a minha regra virou publicar tudo que cumpre o padrão mínimo e deixar o julgamento final com o leitor.
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Short passou quatro décadas coletando as três marcas em escala industrial. Cada filme que não deu certo foi lançado, teve bilheteria pública e ocupou um lugar diferente na carreira dele. As duas em cada cem que funcionaram não apareceram por sorte pura: apareceram porque havia cem no mercado, cada uma testando algo distinto.
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A tentativa que não sai da gaveta não conta como tentativa. Ela conta como ensaio para uma estreia que nunca acontece.
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