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I O Que Eu Vi
Os milhões que ficaram na mesa
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Bill Watterson, nascido em 1958 em Washington, capital, e criado em Chagrin Falls, no estado de Ohio, estreou Calvin e Hobbes em 18 de novembro de 1985 pela Universal Press Syndicate. Em três anos a tira estava em centenas de jornais, e a agência fez o que agências fazem com um sucesso: preparou o licenciamento.
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O plano era o de sempre. Bichos de pelúcia do Hobbes, canecas, lancheiras, uma série de televisão. O Garfield de Jim Davis já mostrava quanto rendia um personagem estampado em tudo, e o Snoopy de Charles Schulz ia pelo mesmo caminho.
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Watterson recusou. O contrato original dava à agência direitos sobre os produtos, e ele passou anos negociando para recuperá-los. Em 1990, a Universal cedeu e devolveu o controle comercial ao autor. A resposta dele a quase toda proposta seguinte foi não.
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Os produtos oficiais cabem numa mão: dois calendários de dezesseis meses e um livro didático para professores, Teaching with Calvin and Hobbes (Ensinando com Calvin e Hobbes), de 1993. Os adesivos do Calvin urinando num logotipo, que você já viu em vidro de picape, são todos piratas. Ele nunca autorizou um.
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O argumento dele aparece no Calvin and Hobbes Tenth Anniversary Book (livro de dez anos da tira), de 1995. Um tigre que fala só funciona se o leitor decidir, a cada tira, se o Hobbes é bicho vivo ou boneco. Um Hobbes de pelúcia na prateleira da loja resolve a dúvida pelo leitor, e a tira morre um pouco.
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“Criar uma vida que reflita os seus valores e satisfaça a sua alma é uma conquista rara.”
Bill Watterson · Some Thoughts on the Real World by One Who Glimpsed It and Fled (discurso no Kenyon College), 1990
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Ele disse a frase a formandos do Kenyon College, em Ohio, em maio de 1990, no meio da briga com a agência. Ninguém na plateia sabia quanto ela custava a quem falava.
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O valor exato que ele recusou nunca foi publicado, e Watterson jamais falou em cifras. O que se sabe é a comparação: o Garfield já estampava caneca, lancheira e pelúcia em quase toda loja de brinquedo ao final dos anos 1980, pela Paws Inc., empresa de Jim Davis. Calvin e Hobbes, com circulação parecida, abriu mão de quase toda essa receita.
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A recusa também custou relação. Watterson descreveu os anos de negociação como os piores da carreira, com a agência pressionando e ele ameaçando parar de desenhar. A tira seguiu saindo todo dia enquanto a briga corria por trás.
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Recusar o dinheiro fácil deixou Watterson com a única moeda que a agência não podia imprimir: a confiança de quem lia.
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II O Mecanismo
Por que o sindicato cedeu
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A meia página de 1992 só funcionou porque o leitor já estava do lado do autor, e o sindicato sabia contar.
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Uma agência de tiras vive de revender o mesmo desenho a centenas de jornais. Cada jornal paga conforme a circulação. Quando uma tira está em 2.400 diários, ela sustenta parte do catálogo inteiro da agência, inclusive tiras menores que viajam no mesmo pacote.
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Lee Salem, editor da Universal Press Syndicate e interlocutor de Watterson por toda a carreira, levou a exigência aos jornais. A regra nova era simples: o domingo de Calvin e Hobbes seria vendido só como meia página, em formato único, e o jornal que quisesse menos espaço ficaria sem a tira.
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Editores escreveram cartas furiosas. Espaço de domingo é o mais caro do jornal, porque é onde entra o encarte de supermercado. Alguns publicaram a tira reduzida até o limite do legível, em protesto. Quase todos ficaram.
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O cálculo do editor era o do assinante. Cancelar a tira mais lida do caderno para ganhar um quarto de página de anúncio trocava receita certa por reclamação certa, e reclamação de assinante vira cancelamento de assinatura.
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Com o formato garantido, Watterson passou a desenhar o domingo como pintura. Quadros sem borda, um painel inteiro de dinossauros em aquarela, sequências de trenó descendo a página em diagonal. Parte do que os leitores lembram de Calvin e Hobbes nasceu nesses domingos de 1992 a 1995.
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A segunda pausa veio em 1994, mais nove meses, e os jornais esperaram de novo sem tirar a tira do contrato. Quem guarda espaço vazio por nove meses para um autor já admitiu quem manda.
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Em 31 de dezembro de 1995, ele encerrou a tira por vontade própria, ainda no topo. A última imagem mostra Calvin e Hobbes num trenó, sobre neve nova, e a fala: “Vamos explorar!”. Watterson saiu da vida pública e quase não deu entrevista nas décadas seguintes.
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Nota do HC
Eu leio a história da meia página como o caso mais limpo de poder de negociação que conheço no mundo editorial. Watterson não ganhou por talento, porque talento sobrava em outras tiras. Ganhou porque 2.400 jornais tinham medo de perder o leitor dele, e eu acho que quem escreve hoje esquece que o mesmo medo pode trabalhar a seu favor.
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O distribuidor obedece a quem leva o leitor até ele; o resto negocia de chapéu na mão.
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