Abre → Digita → Apaga

🍊Alquimia da Mente – Edição #144

🎹 Leia essa edição me ouvindo tocar: Up - "Married Life"

Abre. Digita. Apaga.

Abre o YouTube. Assiste dois minutos de alguma coisa. Fecha o YouTube.

Abre de novo. Digita. Apaga.

Tá bom assim. É isso que eu ia dizer para mim mesmo. Que não está fluindo. Que hoje não é o dia. Que amanhã vai sair melhor. Que talvez eu precise de um café. Ou de um walk. Ou de um novo aplicativo de notas.

Qualquer coisa. Qualquer coisa menos sentar e escrever.

Bloqueio criativo.

Bonito, isso. Parece até sofisticado. Evoca escritores sofridos, janelas com neblina, cigarros na beirada de mesas de madeira escura.

Hemingway. Proust. Kafka escrevendo cartas angustiadas às três da manhã. Gente assim, que provavelmente também estava paralisada, mas tinha a decência de fazer isso com mais charme.

Eu só fico checando notificação.

Mas espera.

Espera, espera, espera.

Eu sei exatamente o que quero escrever.

Eu sei o tema. Eu tenho a opinião. A história? Também tenho. O título já passou pela minha cabeça umas seis vezes hoje.

Então o quê?

O quê, exatamente, está me travando?

...

Ok.

Vou ser honesto comigo.

Eu tenho medo de publicar merda.

É isso. É só isso. Sem poesia, sem Hemingway, sem quadros de cortiça. Medo. Simples, barato, ordinário: medo.

E "bloqueio criativo" é a versão palatável que eu conto pra mim mesmo pra não ter que admitir isso.

Nobre, né? Um diagnóstico nobre para uma coisa covarde.

Mas eu sei. Eu sei que sei.

A ideia que "ainda não está madura". O texto que "precisa de mais uma revisão". O planejamento que "precisa ser mais sólido". A pesquisa que "precisa ser mais completa". O posicionamento que "precisa ser mais claro".

Cada uma dessas frases é medo vestido de discernimento.

Medo vestido de discernimento.

Que disso.

E a voz continua. Fica lá, no canto, com aquela consistência irritante de alguém que nunca tirou férias:

"Isso já foi dito antes."

"Vão achar que sou superficial."

"Precisa ser mais estruturado."

"Deixa para quando eu tiver mais dados."

E a favorita de todas: "Preciso repensar o formato antes de começar."

O formato. Como se o problema fosse a tipografia.

Pois é. Pois é, pois é.

A voz sabe exatamente o que dizer para me parar. Ela me conhece melhor do que eu gostaria. Ela sabe que se disser "você vai falhar", eu ignoro. Então ela diz coisas razoáveis. Coisas que soam como sabedoria.

E eu deixo.

Fico aqui girando a mesma frase, digitando e apagando, digitando e apagando, como se dessa vez fosse sair diferente. Como se o problema fosse a frase e não eu que não consigo largar o julgamento por tempo suficiente pra deixar o texto respirar.

Escrever e editar ao mesmo tempo.

Eu faço isso toda hora.

Três horas no documento. Cursor piscando. Meia página escrita. O cursor, aliás, piscando com aquela paciência condescendente de quem já viu isso antes e parou de ter expectativa.

Isso não é bloqueio.

É paralisação por autocensura.

Tem diferença. E eu fico confundindo as duas porque a segunda tem solução e eu prefiro não ter solução.

...

E se eu tivesse um deadline?

Se fosse quinta, 23h, e a newsletter fosse sair sexta às 18h, de verdade sair, sem adiamento possível?

Esse parágrafo que "ainda não estava bom o suficiente"...

...ia ficar bom o suficiente.

Rápido. De uma forma tão milagrosa que me faz questionar se o problema era do parágrafo ou meu.

Spoiler: era meu.

Porque o perfeccionismo só existe quando tem tempo livre. Com prazo real, o perfeccionismo some. Fica só o texto. E o texto, na maioria das vezes, já estava bom.

Com deadline, sobrevive o essencial.

Então o que é mais útil?

O texto perfeito que eu nunca publico?

Ou o texto bom o suficiente que chega no domingo?

Eu sei a resposta. Eu já soube a resposta. Só fico fingindo que não sei pra poder adiar mais um pouco. Mais um dia. Mais uma semana. Mais uma versão do texto que nunca vai existir porque a versão anterior também nunca existiu.

Ok. Para.

Qual é, exatamente, o medo?

Não o medo vago. O medo específico.

Medo de parecer superficial? Aprofunda e publica.

Medo de errar um dado? Checa e publica.

Medo de alguém discordar?

Isso... isso na verdade é a coisa melhor que pode acontecer. Significa que eu disse algo que importa o suficiente pra gerar reação.

Mas o outro medo, o fundo do poço, é que eu não seja bom o suficiente.

Que o texto revele algo que eu preferia esconder: que eu ainda estou aprendendo, que eu ainda erro, que eu ainda sou mediano em coisas que finjo dominar. E, pior, que alguém vai notar antes de mim.

Esse medo não tem solução técnica.

Não tem checklist. Não tem framework. Não tem curso de R$2.000 que resolve.

Tem só uma saída.

Publicar.

Porque o escritor que eu vou ser no ano 5 só existe se eu publicar no ano 1. A versão melhorada de mim é construída em cima das publicações imperfeitas de hoje.

Então o medo de não ser bom o suficiente é exatamente a razão para publicar agora.

Não para provar que sou bom.

Para começar a construção de quem vou ser.

...

Imperfeição publicada evolui.

Perfeição guardada apodrece.

Abre o documento.

Digita.

Não apaga.

Obrigado pela leitura!
Confira os destaques abaixo.
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HC