Esse boletim virou o meu texto mais lido
O senhor disse que eu ia fracassar no vestibular. Passei. Na segunda tentativa, sim, mas em Ciências Econômicas, na UFRJ, a federal que meus pais fizeram questão.
Aos dezoito, lia em torno de cinquenta livros por ano, quase todos em inglês.
Estudava investimentos e escrevia em fóruns sobre a minha jornada investindo o pouco dinheiro de universitário. Ninguém me mandou. Ninguém deu nota.
Discutia com os membros do fórum a fronteira eficiente de Markowitz, índice Sharpe, desvio padrão. Ganhei seguidores, curtidas e comentários.
Um aluno de recuperação, influente num fórum de investimentos. A escola nunca soube.
Na faculdade, peguei ranço pelo mundo acadêmico. O CR era 3,6. Repetia mais matérias do que passava.
Se o senhor olhasse o histórico, diria que tinha acertado. Eu dormia nas aulas e lia nos corredores.
Outros professores queriam usar a posição de autoridade para me encaixar na visão de mundo deles. Como agir, como estudar, como “ser alguém na vida”.
Um dia, na frente de toda a classe, ouvi de um deles: “Olhem para o Henrique vestido de regata, bermuda e chinelo.”
“Agora olhem para o colega de terno, camisa social, gravata e sapato de couro. Ele está construindo um futuro brilhante numa gestora de investimentos.”
Esse professor não sabia, e nunca vai saber, de uma rotina da turma.
Toda vez que o meu amigo de terno tinha um desafio maior do que a habilidade dele, um pedido de ajuda chegava no meu celular.
Era o menino de regata, bermuda e chinelo que resolvia os problemas de gente grande na gestora.
Me sentia uma peça quadrada que não se encaixa num mundo de peças redondas, como disse uma vez Steve Jobs.
Fiquei na faculdade mais pelo meu pai do que por mim. Depois de me arrastar por quatro anos, larguei para seguir o meu caminho.
Criei um blog. Vendi produtos digitais. Montei um time. Virei empreendedor.
E em 2017 escrevi um texto que abria com uma foto. A foto do meu boletim do terceiro ano. Recuperação em Física, Biologia e Química.
O título era “Recuperação”. A primeira frase da introdução era a sua.
“Meu professor de Química disse na frente de todos os meus amigos: Você vai fracassar no vestibular porque não entende nada de Química.”
Todo mundo que começa a ler acha que o texto é sobre mim. Que vou contar como quase rodei.
Ao longo do texto, a recuperação muda de dono. Quem deveria estar de recuperação é o sistema de ensino, que forma pessoas para serem medianas, para tirar seis em tudo.
Um sistema que ensina a focar na fraqueza. Se você vai mal em Física e Biologia, vai lá e estuda até ficar na média. Ninguém pergunta no que você é muito bom.
O texto terminava com uma pergunta ao leitor: “Qual é a recuperação que você precisa fazer na sua vida?”
Postei no Facebook. Nunca esperei que ele fosse tão longe. Alcançou mais de oito milhões de pessoas.
Cinquenta e seis mil curtidas. Cinquenta e um mil compartilhamentos. Oito mil comentários, muita gente marcando um professor.
Foi o texto mais lido que escrevi na vida. E começa com a sua frase.
Dos três tipos de texto que ficam, ele foi o terceiro: a polêmica que divide a sala em dois lados. Quem defende a escola e quem já foi a recuperação dela.
O texto nunca disse o seu nome. O senhor foi a primeira linha, nunca o assunto.
Nunca mais escrevi nada tão lido, e nunca precisei. Aquele texto pagou a dívida com a frase.
Minha mãe foi professora da rede pública por muito tempo. Largou o município no dia em que uma diretora disse a ela que não podia reprovar aluno.
Ela respondeu que o aluno precisava daquela experiência para entender que precisava aprender. Que não dava para passar a mão na cabeça de todos.
O senhor e a diretora estavam nos dois extremos do mesmo sistema. Um reprova com uma frase. A outra proíbe reprovar. Nenhum dos dois pergunta o que o aluno sabe fazer.
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