Do corredor para a mesa
O Comiket cresceu no ritmo de quem comprava e voltava para vender. As edições passaram a acontecer duas vezes por ano, no verão e no inverno. A sala de Toranomon ficou pequena, e o evento mudou de endereço várias vezes, sempre para espaços maiores, até chegar ao Tokyo Big Sight, o centro de exposições da baía de Tóquio, a casa dele desde 1996.
Yonezawa presidiu o comitê organizador de 1980 até a morte, em 2006. Ele dizia que o evento devia existir para quem quisesse se expressar, e o comitê mantém até hoje uma regra que nasceu daquele espírito: o espaço é distribuído por sorteio entre os círculos inscritos, sem favorecer quem vende mais. O estreante e o veterano disputam a mesma mesa na mesma loteria.
O comitê registrou o recorde de público na edição de inverno de 2019, a Comiket 97: cerca de 750 mil visitantes em quatro dias. Em cada edição grande, dezenas de milhares de círculos ocupam os pavilhões. E a maior parte dessas mesas é ocupada por gente que começou do lado de lá do corredor, como visitante.
O caso mais conhecido é o do CLAMP, o grupo de mulheres autoras que mais tarde publicaria Sakura Card Captors e xxxHOLiC. Nos anos 1980, o CLAMP era um círculo de dōjinshi como tantos outros, vendendo revistas feitas pelas integrantes em feiras de autores independentes, o Comiket entre elas. A estreia profissional veio em 1989, com RG Veda. As autoras aprenderam a desenhar para leitores reais muito antes de qualquer editora pagar a primeira página.
Repare na sequência. Leitora, compradora, autora de revista grampeada, autora profissional. Cada degrau aconteceu dentro do mesmo ambiente, e o degrau seguinte estava sempre visível do degrau anterior.
“O Comic Market é um espaço para todos os que desejam se expressar.” Yoshihiro Yonezawa, declaração de princípios do Comic Market, citada pelo comitê organizador
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O mercado que fabrica o próprio fornecedor
Aqui está o que mais me impressiona no Comiket, e o motivo de eu achar que ele interessa a quem nunca leu um mangá. A feira resolveu o problema de oferta de um jeito que nenhum gestor de mercado planejaria. Ela não precisou buscar autores. Ela os formou na fila.
Todo mercado de conteúdo vive o mesmo aperto: precisa de gente nova escrevendo, e o caminho para virar autor costuma ser longo, caro e escondido. As editoras tradicionais resolvem com olheiros, concursos, cursos. Funciona, mas devagar e para poucos. O Comiket resolveu com proximidade. Ao colocar milhares de autores amadores ao alcance da mão de milhares de leitores, ele fez de cada visita uma aula informal de publicação.
O efeito acumula. Quanto mais círculos vendem, mais leitores veem gente comum vendendo. Quanto mais leitores veem, mais se inscrevem no ano seguinte. Cinquenta anos depois, a feira que começou com 32 mesas tem tantos inscritos que precisa de sorteio para caber no maior pavilhão do país.
Repare também no que a feira ensina sem dar aula. O círculo estreante descobre, na primeira tarde, quantas cópias o público leva, que capa faz alguém parar, que preço espanta e que preço passa despercebido. Nenhum curso entrega essa informação com tanta precisão, porque ela vem do comprador olhando nos olhos de quem fez a revista. No ano seguinte, o mesmo círculo volta com tiragem ajustada, capa melhor e uma história mais curta. O aprendizado acontece em ciclos de seis meses, o intervalo entre uma edição de verão e uma de inverno, e cada ciclo forma um autor um pouco mais firme.
E o leitor que ainda não vende participa desse aprendizado de graça. Ele vê a fila crescer numa mesa e sumir na outra, ouve o vendedor explicar a próxima edição, nota qual estreante esgotou antes do almoço. Quando enfim se inscreve, já chega sabendo muito do ofício que ninguém escreveu em manual nenhum.
Eu acho que a nossa relação com a leitura perdeu esse corredor. Lemos muito, em volume, mas lemos de longe. O texto chega pelo feed, sem rosto, sem custo de impressão visível, sem a pessoa que o fez parada atrás da mesa. Ficamos na posição de consumidor puro, aquela que o Comiket aboliu no regulamento. E quem só consome raramente percebe que poderia produzir.
A leitura que forma autor é a leitura de perto. É ler sabendo quem escreveu, de onde escreveu, com que recursos. É ler a revista do vizinho, a newsletter de uma pessoa só, o livro de uma editora pequena cujo dono responde email. Esse tipo de leitura não substitui o clássico. Ele faz outra função: encurta o caminho entre a página e a sua mão.
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Um metro e meio de corredor
Volte à moça do trem, com a revista de quarenta páginas no colo. O que ela leu não era melhor que o mangá profissional da banca. Muitas vezes era pior, com traço inseguro e roteiro apressado. O valor estava em outro lugar: a revista mostrava, página por página, que o autor era alcançável.
Eu acredito que todo leitor sério tem um texto guardado, e que a maior parte desses textos não sai porque o leitor nunca chegou perto o bastante de quem publica. A solução do Comiket cabe na sua rotina sem feira nenhuma. Basta escolher, entre tudo o que você lê, uma fonte feita por uma pessoa de carne e osso, e ler como quem anda pelo corredor: prestando atenção na obra e no jeito como ela foi feita.
Quantas edições ela já publicou? Com que frequência? Quanto ela escreve por semana? Essas perguntas parecem curiosidade, mas são o mapa. Foi com elas que a leitora de 1975 descobriu que quarenta páginas cabiam em três meses de fins de semana.
Hoje, até as 22h, escolha uma única pessoa que escreve algo que você lê, e mande a ela uma pergunta sobre o ofício: quanto tempo leva, como começou, o que usa. Uma pergunta, uma mensagem, antes de dormir. É o seu primeiro passo pelo corredor.
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O autor seguinte costuma estar na fila do autor de hoje. |
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Como foi a edição de hoje? Toque nas tangerinas: |
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Pergunta da edição Quantos grupos de autores venderam as próprias revistas no primeiro Comic Market, em Tóquio, em dezembro de 1975? |
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Sua ofensiva 🔥 {{streak_atual | 0}} dias seguidos · recorde {{streak_recorde | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} Faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}. Ver minha ofensiva |
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Responde este email contando qual autor você leu de perto e que fez você pensar em escrever também. Eu leio todas as respostas. Forte abraço, Henrique Carvalho P.S. O Comiket provou que o leitor atento é o autor que ainda não montou a mesa. Se a sua mesa for uma newsletter, a oficina fica aqui. |
Alquimia da Mente · Henrique Carvalho · Balneário Camboriú, SC |
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