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Dez minutos por aplicativo, e a solidão caiu
143 estudantes, três semanas, um cronômetro. Ninguém saiu das redes, e mesmo assim o humor mudou.
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O cronômetro ao lado do celular
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Em 2018, Melissa Hunt e a equipe dela na Universidade da Pensilvânia deram um cronômetro a 143 estudantes por três semanas: um grupo seguiu a rotina normal de redes sociais, o outro ficou limitado a dez minutos por dia em cada aplicativo. O grupo limitado terminou com queda significativa de solidão e de sintomas depressivos, e a queda foi maior justamente em quem entrou mais deprimido.
Leia de novo a linha que muda tudo: ninguém saiu das redes.
Os dois grupos continuaram com Facebook, Instagram e Snapchat instalados no celular. Continuaram vendo amigo viajando, colega promovido, festa que não recebeu convite. O que mudou foi o relógio, e o relógio sozinho mexeu no humor de gente que tinha passado a vida inteira ouvindo que o problema era de caráter.
Eu já vi o texto contrário circular mil vezes. Delete tudo, corte de vez, apague as contas e vire outra pessoa numa segunda-feira. Eu mesmo escrevi um dia que deletei minhas redes sociais, e a caixa de entrada me devolveu 31 comentários em nove edições sobre o feed como cela. Todo mundo descreveu a cela. Ninguém mostrou o número do depois.
Hunt mostrou o número do depois, e é um número modesto de propósito. Dez minutos. Por aplicativo. Nenhum juramento, nenhuma desintoxicação de fim de semana numa pousada sem sinal, nenhuma promessa de virar monge digital até dezembro.
O estudo saiu no Journal of Social and Clinical Psychology com um título que já entrega a tese: limitar o uso de redes sociais reduz solidão e depressão. Reduzir, não abandonar. O verbo importa, porque abandonar é uma decisão que quase ninguém sustenta e reduzir é uma decisão que quase todo mundo consegue tomar hoje à noite.
Existe um detalhe ainda mais desconfortável no desenho do experimento. O grupo de controle, o que seguiu a rotina normal, também melhorou num ponto específico, e o motivo tem a ver com a única coisa que os dois grupos fizeram igual durante as três semanas.
Hoje eu te mostro o que Hunt mediu, por que a dose funciona melhor que a abstinência, e como montar as suas três semanas com o cronômetro que já está no seu bolso.
Continue lendo. ↓
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I O Que Eu Vi
O experimento que trocou o juramento por um cronômetro
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Melissa Hunt dirige a área clínica do programa de psicologia da Universidade da Pensilvânia. Com Rachel Marx, Courtney Lipson e Jordyn Young, ela publicou em dezembro de 2018 um dos poucos trabalhos da área que testa causa, e não correlação.
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A distinção pesa. Quase tudo que você leu sobre celular e tristeza vem de pesquisa correlacional: mede-se quanto a pessoa usa, mede-se como ela se sente, e cruza-se. Correlação não diz quem empurrou quem. Gente triste pode usar mais rede social justamente por estar triste, e o gráfico fica idêntico nos dois casos.
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Hunt montou um experimento. Sorteou os 143 alunos em dois grupos, mediu antes, mediu depois e controlou o uso com prova: os participantes entregavam capturas de tela da bateria do iPhone, que mostram o tempo real gasto em cada aplicativo. Sem autorrelato, sem confiar na memória de ninguém.
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O grupo experimental recebeu a ordem simples: dez minutos por dia em cada uma das três plataformas, trinta minutos no total. O grupo de controle continuou a vida como sempre.
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Três semanas depois, as escalas de solidão e de depressão caíram de forma significativa no grupo limitado. E o efeito apareceu mais forte nos alunos que entraram no estudo com os piores escores de depressão, o que inverte a desculpa mais comum: quem está pior é quem tem mais a ganhar com o corte, não quem está pior é quem menos consegue cortar.
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“Esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros.”
Sherry Turkle · Alone Together, 2011
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Turkle escreveu a frase sete anos antes do experimento, depois de centenas de entrevistas sobre o que a tela fez com a intimidade. Hunt colocou um número atrás da intuição dela.
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Agora o detalhe do grupo de controle. Os dois grupos melhoraram em ansiedade e em medo de estar perdendo alguma coisa, o famoso FOMO. Hunt atribui o ganho a um efeito que o próprio estudo provocou sem querer: durante três semanas, todo participante ficou monitorando o próprio uso pra entregar as capturas. Ninguém consegue prestar atenção no relógio e continuar anestesiado ao mesmo tempo.
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A atenção ao próprio consumo já muda o consumo, antes mesmo de qualquer regra entrar em vigor.
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II O Mecanismo
Por que a dose vence o juramento
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O corte total tem um problema de engenharia que nenhuma força de vontade resolve. Ele é binário: ou você cumpriu, ou fracassou. Na primeira falha, a régua interna anuncia que a experiência acabou, e o retorno costuma vir pior do que o ponto de partida.
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Quem já tentou dieta radical conhece a curva. Duas semanas de perfeição, uma noite de pizza, e a conclusão de que o projeto inteiro morreu.
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O limite de dez minutos funciona por uma razão oposta: ele é contínuo. Passou pra quinze? Você usou quinze, e amanhã tenta dez. Não existe fracasso, existe medição. A régua vira um instrumento, e instrumento não julga ninguém.
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Existe um segundo motivo, mais interessante, escondido no desenho de Hunt. Ela não pediu abstinência porque redes sociais entregam algo real. A mensagem da prima que mora longe, o grupo do curso, o aniversário que você lembrou por causa da notificação. Cortar tudo joga fora o pedaço útil junto com o resto.
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O dano mora na duração. Dez minutos de Instagram são a mensagem da prima. Setenta minutos de Instagram são quarenta perfis de gente que você não vê há cinco anos vivendo a versão editada da vida, enquanto você compara a versão editada deles com a versão completa da sua, incluindo a pia suja atrás do celular.
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Hunt nomeia o mecanismo no artigo: comparação social. O feed entrega um fluxo contínuo de recortes escolhidos a dedo, e o cérebro trata cada recorte como amostra representativa. Trinta segundos de comparação não fazem estrago. Uma hora por dia, todo dia, durante um ano, constrói uma convicção silenciosa de que todo mundo está indo melhor.
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Nota do HC
Eu deletei minhas redes sociais, e não foi por impulso: foi por entender que quero uma vida que tenha sentido. Só que eu já escrevi essa frase nove vezes aqui e sempre descrevi a cela, nunca o que acontece depois de sair dela. O que Hunt me deu foi o depois com número, e o número diz que você não precisa fazer o que eu fiz pra sentir parte do efeito.
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O terceiro motivo é o mais prático de todos. Um limite de dez minutos você começa hoje sem avisar ninguém, sem apagar conta, sem perder contato, sem o constrangimento de explicar pro grupo da família por que sumiu. Reversível, discreto e barato. Decisões assim são as únicas que sobrevivem a uma semana ruim.
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Abstinência é uma decisão que você toma uma vez e quebra uma vez. Dose é uma decisão que você toma todo dia e acerta na maioria deles.
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