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I O Que Eu Vi
A multa de 1791
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Tsutaya Juzaburo nasceu em 1750 no Yoshiwara, o bairro de prazeres de Edo. Começou vendendo guias do próprio bairro, aqueles livretos que listavam casas e cortesãs, e em 1783 já tinha loja em Nihonbashi, o centro comercial da cidade.
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O negócio dele era descobrir gente. Publicou os primeiros trabalhos sérios de Kitagawa Utamaro, o pintor que fixou o rosto feminino na gravura japonesa, e os livros satíricos de Santo Kyoden, o escritor mais lido da geração.
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Então veio a Reforma Kansei. Entre 1787 e 1793, o conselheiro Matsudaira Sadanobu comandou um aperto moral sobre Edo: menos luxo, menos sátira ao governo, menos literatura de bairro de prazeres.
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Em 1791, Tsutaya publicou três sharebon (livretos de humor ambientados nos bordéis) escritos por Kyoden. A censura considerou os três imorais. Kyoden passou cinquenta dias com as mãos algemadas em casa. Tsutaya teve metade dos bens confiscada.
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Metade é muito. Pense no estoque de livros prontos, no dinheiro guardado, nos objetos da família. O Estado não mandou um aviso: tirou, no ato, a metade do que existia.
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“Desenhou os retratos dos atores, mas, ao querer mostrar o real, exagerou e os fez sem graça; não durou, e parou em um ou dois anos.”
Ota Nanpo · Ukiyo-e ruiko, c. 1800
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A anotação de Ota Nanpo, poeta e funcionário do próprio xogunato, mostra que o público da época não aplaudiu Sharaku. Mas ela registra uma segunda informação: alguém pagou pra imprimir aquele exagero, folha por folha, durante quase um ano. Esse alguém era o homem que tinha acabado de perder metade do patrimônio.
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A multa alcança o cofre. O ofício de transformar um nome desconhecido num livro vendido fica com quem aprendeu a fazer.
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II O Mecanismo
O que o fiscal não carregou
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Uma gravura de Edo não saía da cabeça do artista direto pra parede. Saía de uma cadeia de quatro ofícios, e quem coordenava a cadeia era o editor.
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O artista desenhava em papel fino. O gravador colava o desenho num bloco de madeira de cerejeira e entalhava as linhas. O impressor passava a tinta e esfregava o papel com um baren (um disco de bambu usado pra pressionar a folha contra o bloco). O editor bancava, escolhia o tema, decidia a tiragem e vendia na loja.
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Agora some o que a censura levou e o que ela deixou. Levou dinheiro e bens. Deixou os contratos de confiança com gravadores e impressores, os blocos já entalhados, o nome da loja que o povo de Edo conhecia, e o olho de um homem que tinha descoberto Utamaro.
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Os blocos contam muito. Um bloco entalhado é capital parado: dá pra reimprimir quando a demanda volta, sem pagar de novo o artista e o gravador. Cada título no catálogo de Tsutaya era uma fonte de receita que continuava rendendo enquanto a loja estivesse aberta.
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Nota do HC
Eu leio a história de Tsutaya como a melhor defesa que conheço de ser dono dos meios de publicar. Quem depende de alcance alugado perde tudo quando muda a regra; quem guarda o catálogo, a lista e o ofício perde dinheiro e continua de pé. Eu prefiro mil vezes o segundo prejuízo.
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Em maio de 1794, a loja soltou as 28 primeiras gravuras de Sharaku. Eram ôkubi-e (retratos de busto, só a cabeça e os ombros) com fundo de mica, um pó mineral que faz a folha brilhar sob a luz de vela. Ninguém lança 28 folhas caras de uma vez sem caixa, sem impressores de confiança e sem uma loja onde o cliente já entra querendo comprar.
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Os retratos mostravam atores conhecidos com o nariz grande, a boca torta, os olhos cruzados no auge da cena. O público queria ídolos bonitos e recebeu caricatura. Ota Nanpo anotou o fracasso; os colecionadores de Paris e Munique, cem anos depois, viram ali a primeira galeria de rostos humanos sem maquiagem da arte japonesa.
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Repare no tamanho do risco. Uma folha com fundo de mica custava ao editor bem acima de uma gravura comum, porque o pó mineral exigia uma passada extra de impressão e um impressor de mão firme. Tsutaya multiplicou esse custo por 28 de uma vez, e depois por quatro levas seguidas ao longo de dez meses.
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A cada leva o formato mudou. Os bustos deram lugar a figuras de corpo inteiro, depois a cenas com dois atores, depois a folhas menores e mais baratas. Quem acompanha a sequência vê um editor ajustando o produto à resposta da rua, cortando custo quando a venda não veio, sem desistir do artista no primeiro mês.
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Tsutaya perdeu a fortuna e manteve o catálogo. Três anos bastaram pra provar qual dos dois era o patrimônio.
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