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Henrique Carvalho  Alquimia da Mente ED 308

O MySpace perdeu 50 milhões de músicas numa mudança de servidor

Ninguém fechou a plataforma nem mudou o contrato. Doze anos de arquivo sumiram num erro técnico, e o aviso veio meses depois.

O MySpace perdeu 50 milhões de músicas numa mudança de servidor

Um servidor antigo apagado numa sala vazia

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Em março de 2019, o MySpace confirmou ao jornal britânico The Guardian que uma migração de servidores tinha corrompido tudo o que os usuários subiram entre 2003 e 2015. Andy Baio, criador do festival XOXO e autor do blog Waxy, fez a estimativa no mesmo mês: mais de 50 milhões de músicas, de 14 milhões de artistas.

Doze anos de música. Demo gravada no quarto, primeira banda do colégio, faixa que nunca saiu em disco. Muita gente só descobriu porque o player parou de tocar e ninguém soube explicar o motivo.

Repare no que não aconteceu. O site não fechou. Nenhum termo de uso mudou de madrugada. Nenhum executivo anunciou o fim de um produto. A empresa continuava no ar, com logotipo, página inicial e equipe.

Um processo técnico rotineiro, desses que acontecem em toda empresa de tecnologia várias vezes por ano, rodou mal. E o arquivo se foi.

Os primeiros relatos de faixas que não carregavam apareceram em 2018. A confirmação pública veio meses depois, numa mensagem curta no próprio site, pedindo desculpas pelo transtorno.

A gente costuma temer o fim anunciado: a rede que encerra, a regra que muda, o algoritmo que esconde. Contra esses riscos existe pelo menos um aviso, uma data, uma janela pra reagir.

A falha técnica não manda carta. Ela acontece num sábado qualquer, dentro de uma sala de máquinas que você nunca vai ver, operada por gente que nunca ouviu falar de você. E quando o problema vira notícia, o estrago já está consolidado há meses.

O que se perdeu ali não foi audiência. Foi obra. Arquivo que, pra muitos daqueles artistas, existia num lugar só, e esse lugar era o servidor de outra empresa.

Hoje eu te conto como os arquivos somem sem que ninguém decida apagá-los, por que a palavra nuvem engana quem guarda trabalho nela, e o que eu faço pra que o meu acervo sobreviva a um erro alheio.

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I  O Que Eu Vi

Doze anos que cabiam num erro de rotina

 

O MySpace nasceu em 2003, em Santa Monica, na Califórnia, fundado por Tom Anderson e Chris DeWolfe. Em 2005, a News Corp, de Rupert Murdoch, comprou a empresa-mãe por 580 milhões de dólares. Por alguns anos, foi o maior site de rede social do mundo e o palco onde bandas inteiras apareceram antes de ter gravadora.

Arctic Monkeys, Lily Allen e Calvin Harris ganharam público ali. O perfil de música permitia subir faixas, montar um player e deixar a canção tocando sozinha pra quem visitasse a página. Para um artista sem contrato, o perfil funcionava como portfólio, vitrine e cofre ao mesmo tempo.

Depois veio o declínio. Em 2011, a News Corp vendeu o site por cerca de 35 milhões de dólares. Em 2016, a Time Inc. absorveu a dona seguinte, e o MySpace passou de mão em mão como ativo secundário. Em algum momento desse período, alguém precisou mover o acervo antigo para servidores novos.

Mover dados de um sistema para outro é tarefa comum. Também é uma das mais arriscadas da engenharia de software, porque milhões de arquivos atravessam formatos, discos e rotinas de checagem diferentes. Basta um passo falhar sem alarme para que a cópia nova saia corrompida enquanto a antiga é desligada.

Foi o que a empresa descreveu. A mensagem do MySpace dizia que, por causa de uma migração de servidor, arquivos enviados havia mais de três anos podiam não estar mais disponíveis no site. Uma frase. Sem número, sem lista, sem plano de recuperação.

O número veio de fora. Andy Baio calculou as 50 milhões de músicas e os 14 milhões de artistas a partir de dados públicos da própria empresa. Alguns usuários desconfiaram da versão oficial e sugeriram que a migração foi pretexto pra descartar armazenamento caro. Ninguém provou a suspeita, e o MySpace nunca publicou um relatório técnico do incidente. O que se sabe com segurança é o resultado: o acervo original não voltou.

O fim anunciado dá tempo de reagir. A falha técnica só dá a notícia depois que acabou.

 
 
 

II  O Mecanismo

A nuvem é o computador de outra pessoa

 

Existe uma frase que circula entre engenheiros há anos: a nuvem é só o computador de outra pessoa. Ela parece piada, mas descreve com precisão o que acontece quando você sobe um arquivo. Ele vai morar num disco físico, dentro de um prédio, mantido por uma equipe que segue as prioridades do próprio orçamento.

Esse disco envelhece. Os formatos mudam. As empresas trocam de dono, cortam custos, migram para fornecedores mais baratos. Cada mudança dessas é uma oportunidade de perda, e nenhuma delas passa pela sua aprovação.

Vint Cerf, um dos criadores do protocolo que faz a internet funcionar, levou o alerta a uma plateia de cientistas em 2015.

“Estamos jogando todos os nossos dados, sem perceber, no que pode virar um buraco negro de informação.”

Vint Cerf · entrevista à BBC na reunião anual da AAAS, 2015

 

Cerf chamou o cenário de idade das trevas digital (o período futuro do qual não restariam registros legíveis). A preocupação dele era técnica: arquivos que dependem de um software, de um formato ou de um servidor específico deixam de existir quando o suporte some. Papel guardado numa gaveta sobrevive décadas sem manutenção. Arquivo digital sem cópia sobrevive enquanto a empresa que o guarda tiver motivo pra pagar a conta de luz.

O caso MySpace teve um epílogo parcial. Em abril de 2019, um grupo anônimo que se apresentou como Myspace Dragon Hoard entregou ao Internet Archive cerca de 490 mil faixas, baixadas entre 2008 e 2010 para um estudo acadêmico. Menos de 1% do total estimado por Baio. Quem achou a própria música ali teve sorte, porque um estranho tinha guardado uma cópia por outro motivo.

O mesmo padrão se repete em outros acervos. Em 2019, o Flickr anunciou que contas gratuitas passariam a guardar só mil fotos e apagou o excedente; em 2023, o Google começou a remover contas inativas por dois anos. Esses casos tiveram aviso. O do MySpace não teve, e por esse motivo ele ensina mais.

Repare no padrão. A plataforma perdeu, e quem salvou parte do acervo foi alguém de fora, com disco próprio. A recuperação nunca veio de dentro.

Nota do HC

Eu trato todo serviço onde guardo trabalho como um lugar emprestado, por melhor que ele seja. Confio na intenção das empresas; não confio que a intenção sobreviva a uma troca de dono, a um corte de custo e a um sábado de migração mal feita. O meu acervo de edições, aulas e gravações mora em pelo menos dois lugares que não dependem um do outro.

 
 

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III  O Que Eu Faria

Três cópias, dois suportes, um longe de casa

 
Henrique Carvalho

O piano antes da edição, ritual de todo dia

 

Fotógrafos profissionais resolveram o problema antes de a maioria de nós ter um arquivo digital pra perder. Peter Krogh, fotógrafo americano, sistematizou no livro The DAM Book, de 2005, uma prática que ficou conhecida como regra 3-2-1 (três cópias, dois tipos de suporte, uma fora do lugar onde você trabalha).

A lógica é estatística. Uma cópia num lugar só depende de um único ponto de falha. Duas cópias no mesmo disco morrem juntas. Duas cópias na mesma casa morrem no mesmo incêndio. Três cópias espalhadas exigem que três desastres independentes aconteçam ao mesmo tempo, e essa combinação é rara.

Traduzindo para quem cria conteúdo, a regra vira uma rotina simples.

• Primeira cópia: o arquivo onde você trabalha no dia a dia, no computador ou na plataforma que publica.

• Segunda cópia: um disco externo na sua mesa, atualizado numa data fixa do mês.

• Terceira cópia: um serviço de armazenamento de outra empresa, sem relação com a plataforma onde você publica.

O ponto que separa a regra de uma boa intenção é a independência. Guardar o backup do Google Drive dentro do próprio Google não conta como segunda cópia: uma falha da conta leva as duas. O teste é perguntar se um único erro, de uma única empresa, apaga tudo de uma vez. Se a resposta for sim, você tem uma cópia só.

O segundo ponto é a verificação. Backup que nunca foi aberto ainda não provou nada. Engenheiros de dados chamam a checagem de teste de restauração (abrir a cópia e confirmar que o conteúdo está inteiro). Uma vez por trimestre, escolha um arquivo antigo ao acaso e tente abri-lo a partir do disco externo. Se abrir, a rotina funciona. Se não abrir, você descobriu a falha antes de precisar dela.

O terceiro ponto é o inventário. Muita gente não sabe onde mora o próprio acervo. Fotos espalhadas por três aplicativos, textos em duas plataformas, vídeos num drive que ninguém abre desde 2021. Antes de copiar, liste. Uma planilha de uma aba resolve: nome do acervo, onde está hoje, quantas cópias existem.

Os artistas que perderam música em 2019 não foram descuidados por falta de inteligência. Eles confiaram num serviço que parecia permanente porque era enorme. O tamanho da empresa nunca protegeu ninguém de um erro de migração.

Hoje: abra uma planilha, liste três acervos seus (fotos, textos, gravações) e anote quantas cópias independentes cada um tem. Leva quinze minutos, e o acervo que aparecer com uma cópia só recebe a segunda até o fim de semana.

 

“Arquivo guardado num lugar só está guardado no lugar de outra pessoa.”

Henrique Carvalho

Forte abraço,

Henrique Carvalho

🎹 Escrevi esta edição ouvindo Someone Like You, no piano.

 
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Segundo a estimativa de Andy Baio em 2019, quantas músicas o MySpace perdeu na migração de servidores?

A5 milhões
B14 milhões
CMais de 50 milhões
D490 mil

Resultado da última edição: 20% acertaram.

Defenda seu título de Alquimista (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

 
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