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Em março de 2019, o MySpace confirmou ao jornal britânico The Guardian que uma migração de servidores tinha corrompido tudo o que os usuários subiram entre 2003 e 2015. Andy Baio, criador do festival XOXO e autor do blog Waxy, fez a estimativa no mesmo mês: mais de 50 milhões de músicas, de 14 milhões de artistas.
Doze anos de música. Demo gravada no quarto, primeira banda do colégio, faixa que nunca saiu em disco. Muita gente só descobriu porque o player parou de tocar e ninguém soube explicar o motivo.
Repare no que não aconteceu. O site não fechou. Nenhum termo de uso mudou de madrugada. Nenhum executivo anunciou o fim de um produto. A empresa continuava no ar, com logotipo, página inicial e equipe.
Um processo técnico rotineiro, desses que acontecem em toda empresa de tecnologia várias vezes por ano, rodou mal. E o arquivo se foi.
Os primeiros relatos de faixas que não carregavam apareceram em 2018. A confirmação pública veio meses depois, numa mensagem curta no próprio site, pedindo desculpas pelo transtorno.
A gente costuma temer o fim anunciado: a rede que encerra, a regra que muda, o algoritmo que esconde. Contra esses riscos existe pelo menos um aviso, uma data, uma janela pra reagir.
A falha técnica não manda carta. Ela acontece num sábado qualquer, dentro de uma sala de máquinas que você nunca vai ver, operada por gente que nunca ouviu falar de você. E quando o problema vira notícia, o estrago já está consolidado há meses.
O que se perdeu ali não foi audiência. Foi obra. Arquivo que, pra muitos daqueles artistas, existia num lugar só, e esse lugar era o servidor de outra empresa.
Hoje eu te conto como os arquivos somem sem que ninguém decida apagá-los, por que a palavra nuvem engana quem guarda trabalho nela, e o que eu faço pra que o meu acervo sobreviva a um erro alheio.
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