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Henrique Carvalho  Alquimia da Mente ED 283

Machado de Assis testou Brás Cubas com leitor antes do livro

Em 1880, o romance saiu em pedaços numa revista, e o autor ainda podia mexer no texto quando o livro chegou.

Machado de Assis testou Brás Cubas com leitor antes do livro

Revista de 1880 aberta sobre a mesa do tipógrafo

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Em 2009, Ronny Kohavi e a equipe de experimentação da Microsoft publicaram o balanço de anos de testes controlados no site da empresa: só cerca de um terço das ideias testadas melhorou a métrica que deveria melhorar. O resto empatou ou piorou.

Gente experiente, com dado, orçamento e reunião de aprovação. Dois terços das apostas erradas.

Agora pense no criador que passa oito meses montando o curso perfeito, o livro perfeito, o lançamento perfeito. Ele guarda tudo numa pasta. Não mostra a ninguém porque ainda não está pronto. Reescreve a abertura quatro vezes, troca a capa, ajusta a ordem dos módulos.

Se a proporção da Microsoft valer pra ele, e não há motivo pra achar que um criador sozinho acerta mais que um laboratório inteiro, a maior parte das decisões que ele tomou naquela pasta está errada. E ele só vai descobrir no dia do lançamento, com a porta aberta, o anúncio pago e o público olhando.

Guardar parece prudência. Na prática, guardar é adiar o único teste que interessa, que é o leitor real diante do texto real.

Em 1880, um funcionário público do Rio de Janeiro fez o movimento oposto. Ele tinha nas mãos o romance mais estranho que a literatura brasileira tinha visto até ali: narrado por um defunto, com capítulos de meia página, um deles feito só de pontos, dedicado ao verme que primeiro roeu as carnes frias do autor.

Ele não guardou o manuscrito esperando a edição definitiva. Soltou o romance em pedaços, de quinze em quinze dias, numa revista. Os leitores leram antes do livro existir.

Quando o volume saiu, no ano seguinte, o texto já tinha passado pela prova de quem pagou pra ler. E o autor ainda teve a chance de mexer nele.

Hoje eu te mostro como foi a publicação em partes, por que ela funciona como a correção mais barata que existe e o que eu faria com a sua próxima ideia grande.

Continue lendo. ↓

 
 
 
 

I  O Que Eu Vi

O defunto que saiu de quinze em quinze dias

 

Joaquim Maria Machado de Assis tinha 41 anos em 1880. Era funcionário da Secretaria de Agricultura, já conhecido como poeta, cronista e autor de quatro romances bem comportados: Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia.

Naquele ano ele entregou à Revista Brasileira as Memórias Póstumas de Brás Cubas. O romance saiu em folhetim (publicação em partes, capítulo por capítulo, dentro de um periódico) entre março e dezembro de 1880, em números quinzenais. Em 1881, a Typographia Nacional imprimiu o volume.

O folhetim não era invenção de Machado. Era o formato padrão do romance no século XIX. Balzac, Dumas e Dickens publicavam assim. José de Alencar lançou O Guarani em folhetim no Diário do Rio de Janeiro em 1857. O jornal ganhava leitor fiel, o autor ganhava pagamento por parte e, junto, um termômetro que nenhuma editora oferecia: a reação do público enquanto a obra ainda estava em aberto.

O que Machado fez com o termômetro é visível na comparação entre as duas versões. Estudiosos da obra registram diferenças entre o texto da revista e o do livro: trechos cortados, frases reescritas, ajustes de pontuação e de ritmo. O folhetim trazia uma epígrafe tirada de Como Gostais, de Shakespeare, que sumiu no volume de 1881. O livro chegou mais enxuto que a revista.

E aqui está a parte que me interessa. Não existe registro de uma carta de leitor que tenha feito Machado mudar um capítulo. O que se sabe é que ele releu o próprio texto já impresso, já lido por estranhos, e só então fechou a versão do livro. A correção veio da distância que a publicação cria entre o autor e a obra.

Texto na gaveta continua sendo do autor. Texto publicado passa a ser do leitor, e o autor enxerga nele o que não enxergava antes.

O manuscrito guardado só recebe a leitura de quem o escreveu, e essa é a leitura mais cega que existe.

 
 
 

II  O Mecanismo

A correção que só existe antes do livro

 

Existe uma janela na vida de toda obra em que mudar custa quase nada. Ela abre quando a primeira parte chega a um leitor real e fecha quando a versão definitiva sai.

No caso de Machado, a janela durou do primeiro número da revista, em março de 1880, até a impressão do livro. Nesse intervalo, cortar um parágrafo custava uma decisão. Depois do volume impresso, custava uma nova edição inteira, com tipógrafo, papel e distribuição. Tanto que o autor voltou ao texto de novo só em 1896, na terceira edição, quando acrescentou o prólogo em que responde à crítica sobre a forma do romance.

A janela barata tem uma regra simples: ela só existe pra quem publica antes de estar pronto.

O criador que guarda tudo pro lançamento perfeito fecha a janela antes de abrir. Ele troca a correção gratuita por uma correção cara, feita às pressas, com o produto já vendido e o cliente já decepcionado. Os dois terços de apostas erradas da Microsoft continuam lá. Só mudam de lugar: saem da pasta, onde eram baratos, e aparecem no carrinho de compra, onde custam reembolso.

“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna.”

Machado de Assis · Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881

 

A frase abre o prólogo Ao Leitor, assinado pelo próprio Brás Cubas. Machado brinca que o livro talvez não tenha nem cem leitores, talvez cinquenta, talvez vinte, talvez dez. Quem já tinha publicado o romance inteiro em revista sabia exatamente de que tamanho era o público que tinha lido cada capítulo, e escreveu pra ele.

Repare no que o folhetim ensina sobre tamanho. Machado não precisou de um leitor por capítulo pra corrigir o livro. Precisou de um leitor qualquer, fora da cabeça dele, pra que o texto deixasse de ser rascunho íntimo e virasse objeto público. Vinte leitores bastam pra mudar o jeito como o autor relê a própria frase.

Nota do HC

Eu acho que o perfeccionismo de lançamento é medo com roupa de exigência. Quem guarda a obra inteira pro dia da estreia não está protegendo a qualidade, está protegendo o próprio ego do primeiro contato com o leitor. Machado, com quatro romances nas costas, ainda escolheu mostrar em pedaços, e eu não conheço criador hoje com mais motivo que ele pra esconder.

 
 

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III  O Que Eu Faria

O que eu faria com a sua próxima ideia grande

 
Henrique Carvalho

O piano antes da edição, ritual de todo dia

 

A newsletter é a Revista Brasileira de quem escreve hoje. Toda lista é um folhetim esperando capítulo. Você tem leitores que pediram pra receber o que você escreve, num horário combinado, com resposta a um clique de distância.

O que eu faria, na prática, com qualquer projeto grande que estivesse guardando:

Primeiro, quebrar em capítulos. Curso, livro, produto: todo projeto grande se divide em partes que se sustentam sozinhas. Um módulo vira uma edição. Um capítulo vira uma sequência de três emails. A pergunta é qual parte já dá pra mostrar sem as outras.

Segundo, publicar a parte mais arriscada primeiro. Machado abriu com um defunto dedicando o livro a um verme. Começou pelo que mais podia dar errado. Se a sua ideia tem uma tese estranha, um formato novo ou um preço que você não sabe se o público aceita, a tese estranha vai na primeira edição.

Terceiro, medir com critério escrito antes de publicar. Taxa de abertura, respostas, cliques no link da parte seguinte. Anote o número que faria você mudar de rumo antes de ver o resultado, porque depois de ver o resultado todo número parece bom o bastante.

Quarto, reler o que saiu depois de publicado. A correção de Machado veio da releitura do texto impresso. Leia a sua edição publicada como leitor, 24 horas depois do envio, e marque cada frase que você cortaria. A lista dessas frases é o rascunho da versão do livro.

Quinto, juntar só no fim. O volume de 1881 saiu depois de dez meses de revista. O seu produto completo sai depois das partes testadas, com a versão enxuta que o público já aprovou em pedaços.

O risco que o criador teme, o de mostrar algo imperfeito, é pequeno perto do outro. Uma edição fraca some da caixa de entrada em dois dias e o leitor esquece. Um lançamento fraco fica com o seu nome, o seu preço e a sua promessa por anos, na página de vendas, no reembolso e na conversa de quem comprou. O folhetim troca o erro caro pelo erro pequeno.

Nada no método exige audiência grande. Exige coragem de mostrar a obra ainda aberta, e disciplina de corrigir enquanto a correção ainda é barata.

Todo capítulo publicado antes do livro é uma correção que você recebe de graça; todo capítulo guardado é uma correção que você vai pagar depois.

 

O defunto de Machado virou o romance que dividiu a literatura brasileira em antes e depois. Ele chegou aos leitores em pedaços, sem pedir licença pra estar pronto.

Hoje: escolha 1 parte do projeto que está na sua pasta, com no máximo 500 palavras, e publique até amanhã às 18h pra sua lista ou pra 5 leitores reais. Anote as 3 frases que você cortaria ao reler.

 

“O livro fica melhor quando o leitor chega antes dele.”

Henrique Carvalho

Forte abraço,

Henrique Carvalho

🎹 Escrevi esta edição ouvindo Passion Fruit, no piano.

 
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