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Machado de Assis testou Brás Cubas com leitor antes do livro
Em 1880, o romance saiu em pedaços numa revista, e o autor ainda podia mexer no texto quando o livro chegou.
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Revista de 1880 aberta sobre a mesa do tipógrafo
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Em 2009, Ronny Kohavi e a equipe de experimentação da Microsoft publicaram o balanço de anos de testes controlados no site da empresa: só cerca de um terço das ideias testadas melhorou a métrica que deveria melhorar. O resto empatou ou piorou.
Gente experiente, com dado, orçamento e reunião de aprovação. Dois terços das apostas erradas.
Agora pense no criador que passa oito meses montando o curso perfeito, o livro perfeito, o lançamento perfeito. Ele guarda tudo numa pasta. Não mostra a ninguém porque ainda não está pronto. Reescreve a abertura quatro vezes, troca a capa, ajusta a ordem dos módulos.
Se a proporção da Microsoft valer pra ele, e não há motivo pra achar que um criador sozinho acerta mais que um laboratório inteiro, a maior parte das decisões que ele tomou naquela pasta está errada. E ele só vai descobrir no dia do lançamento, com a porta aberta, o anúncio pago e o público olhando.
Guardar parece prudência. Na prática, guardar é adiar o único teste que interessa, que é o leitor real diante do texto real.
Em 1880, um funcionário público do Rio de Janeiro fez o movimento oposto. Ele tinha nas mãos o romance mais estranho que a literatura brasileira tinha visto até ali: narrado por um defunto, com capítulos de meia página, um deles feito só de pontos, dedicado ao verme que primeiro roeu as carnes frias do autor.
Ele não guardou o manuscrito esperando a edição definitiva. Soltou o romance em pedaços, de quinze em quinze dias, numa revista. Os leitores leram antes do livro existir.
Quando o volume saiu, no ano seguinte, o texto já tinha passado pela prova de quem pagou pra ler. E o autor ainda teve a chance de mexer nele.
Hoje eu te mostro como foi a publicação em partes, por que ela funciona como a correção mais barata que existe e o que eu faria com a sua próxima ideia grande.
Continue lendo. ↓
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I O Que Eu Vi
O defunto que saiu de quinze em quinze dias
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Joaquim Maria Machado de Assis tinha 41 anos em 1880. Era funcionário da Secretaria de Agricultura, já conhecido como poeta, cronista e autor de quatro romances bem comportados: Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia.
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Naquele ano ele entregou à Revista Brasileira as Memórias Póstumas de Brás Cubas. O romance saiu em folhetim (publicação em partes, capítulo por capítulo, dentro de um periódico) entre março e dezembro de 1880, em números quinzenais. Em 1881, a Typographia Nacional imprimiu o volume.
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O folhetim não era invenção de Machado. Era o formato padrão do romance no século XIX. Balzac, Dumas e Dickens publicavam assim. José de Alencar lançou O Guarani em folhetim no Diário do Rio de Janeiro em 1857. O jornal ganhava leitor fiel, o autor ganhava pagamento por parte e, junto, um termômetro que nenhuma editora oferecia: a reação do público enquanto a obra ainda estava em aberto.
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O que Machado fez com o termômetro é visível na comparação entre as duas versões. Estudiosos da obra registram diferenças entre o texto da revista e o do livro: trechos cortados, frases reescritas, ajustes de pontuação e de ritmo. O folhetim trazia uma epígrafe tirada de Como Gostais, de Shakespeare, que sumiu no volume de 1881. O livro chegou mais enxuto que a revista.
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E aqui está a parte que me interessa. Não existe registro de uma carta de leitor que tenha feito Machado mudar um capítulo. O que se sabe é que ele releu o próprio texto já impresso, já lido por estranhos, e só então fechou a versão do livro. A correção veio da distância que a publicação cria entre o autor e a obra.
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Texto na gaveta continua sendo do autor. Texto publicado passa a ser do leitor, e o autor enxerga nele o que não enxergava antes.
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O manuscrito guardado só recebe a leitura de quem o escreveu, e essa é a leitura mais cega que existe.
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II O Mecanismo
A correção que só existe antes do livro
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Existe uma janela na vida de toda obra em que mudar custa quase nada. Ela abre quando a primeira parte chega a um leitor real e fecha quando a versão definitiva sai.
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No caso de Machado, a janela durou do primeiro número da revista, em março de 1880, até a impressão do livro. Nesse intervalo, cortar um parágrafo custava uma decisão. Depois do volume impresso, custava uma nova edição inteira, com tipógrafo, papel e distribuição. Tanto que o autor voltou ao texto de novo só em 1896, na terceira edição, quando acrescentou o prólogo em que responde à crítica sobre a forma do romance.
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A janela barata tem uma regra simples: ela só existe pra quem publica antes de estar pronto.
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O criador que guarda tudo pro lançamento perfeito fecha a janela antes de abrir. Ele troca a correção gratuita por uma correção cara, feita às pressas, com o produto já vendido e o cliente já decepcionado. Os dois terços de apostas erradas da Microsoft continuam lá. Só mudam de lugar: saem da pasta, onde eram baratos, e aparecem no carrinho de compra, onde custam reembolso.
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“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna.”
Machado de Assis · Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881
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A frase abre o prólogo Ao Leitor, assinado pelo próprio Brás Cubas. Machado brinca que o livro talvez não tenha nem cem leitores, talvez cinquenta, talvez vinte, talvez dez. Quem já tinha publicado o romance inteiro em revista sabia exatamente de que tamanho era o público que tinha lido cada capítulo, e escreveu pra ele.
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Repare no que o folhetim ensina sobre tamanho. Machado não precisou de um leitor por capítulo pra corrigir o livro. Precisou de um leitor qualquer, fora da cabeça dele, pra que o texto deixasse de ser rascunho íntimo e virasse objeto público. Vinte leitores bastam pra mudar o jeito como o autor relê a própria frase.
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Nota do HC
Eu acho que o perfeccionismo de lançamento é medo com roupa de exigência. Quem guarda a obra inteira pro dia da estreia não está protegendo a qualidade, está protegendo o próprio ego do primeiro contato com o leitor. Machado, com quatro romances nas costas, ainda escolheu mostrar em pedaços, e eu não conheço criador hoje com mais motivo que ele pra esconder.
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