| |
|
|
| |
|
I O Que Eu Vi
A mensagem que saiu da DEC
|
| |
|
A DEC era, em 1978, uma das maiores fabricantes de computadores do mundo, e ficava a uma costa inteira de distância do mercado que Thuerk queria atingir. A empresa tinha um escritório forte no leste americano e queria vender o DECSYSTEM-20, uma måquina de grande porte, para universidades e centros de pesquisa da Califórnia, justamente os lugares que estavam conectados à Arpanet.
|
|
Thuerk tinha uma vantagem rara. A DEC fazia parte da rede, e ele tinha em mãos o diretório com os endereços de quem estava nela. Junto com o engenheiro Carl Gartley, que digitou os endereços no sistema, ele preparou um texto convidando para duas apresentaçþes, uma em Los Angeles e outra em San Mateo.
|
|
Aqui entra o primeiro detalhe tÊcnico que mostra como o canal era jovem. O programa de email da Êpoca tinha um limite no campo de destinatårios. Os endereços que não couberam no cabeçalho transbordaram para o corpo da mensagem. Quem abriu viu um paredão de nomes antes de chegar ao convite.
|
|
Em poucas horas, chegou a resposta do Major Raymond Czahor, da Defense Communications Agency, a agência militar responsåvel pela rede. Ele classificou a mensagem como uma violação flagrante das regras de uso da Arpanet, que existia para pesquisa e para assuntos do governo, nunca para propaganda comercial. A DEC foi avisada de que aquele envio não podia se repetir.
|
|
Os próprios usuårios tambÊm reagiram. Alguns defenderam Thuerk, dizendo que a informação sobre um computador novo interessava a quem trabalhava com computadores. A maioria se irritou com a caixa ocupada por um anúncio que ninguÊm tinha solicitado.
|
|
“O meio ĂŠ a mensagem.”
Marshall McLuhan ¡ Understanding Media, 1964
|
|
| |
|
McLuhan escreveu a frase catorze anos antes do convite da DEC, e ela cabe inteira no episódio. O conteúdo de Thuerk era razoåvel: um computador, uma demonstração, um endereço. O que irritou foi a forma de chegar. Ele usou um canal pessoal como se fosse um outdoor, e o leitor sentiu a diferença na hora.
|
|
E o desfecho de Thuerk? Ele nunca foi preso nem demitido pelo episódio. Seguiu carreira em marketing e, dÊcadas depois, passou a contar a história em entrevistas, aceitando sem constrangimento o apelido de pai do spam. Quanto às vendas, ele afirmou que a campanha rendeu negócios, mas nenhum número de vendas foi publicado pela DEC na Êpoca, e eu não encontrei registro independente que confirme a cifra que ele cita. Fica registrado o que se sabe: o envio aconteceu, a reclamação aconteceu, e a pråtica foi proibida na rede.
|
|
O primeiro email em massa da história ensinou duas liçþes no mesmo dia: o canal alcança muita gente, e cada pessoa alcançada pode reclamar.
|
|
| |
|
|
|
II O Mecanismo
Por que a bronca protegeu o canal
|
| |
|
A palavra spam só grudou nesse tipo de mensagem muitos anos depois. Ela vem de um esquete do grupo britânico Monty Python, de 1970, em que um coro repete a marca de uma carne enlatada atÊ ninguÊm conseguir conversar no restaurante. Usuårios de fóruns e de jogos de texto online, nos anos 1980 e 1990, adotaram o termo para qualquer repetição que atropela a conversa alheia.
|
|
O mais interessante ĂŠ o que veio junto com a palavra. A reclamação do Major Czahor fixou um princĂpio que atravessou o crescimento inteiro da internet: quem recebe tem direito de recusar, e quem envia responde pelo que manda.
|
|
Esse princĂpio virou infraestrutura. Hoje, todo provedor grande de email mede quantas pessoas marcam a sua mensagem como indesejada. Se a taxa sobe, as suas prĂłximas mensagens vĂŁo para a pasta de lixo, inclusive para quem queria recebĂŞ-las. Em fevereiro de 2024, o Google e o Yahoo passaram a exigir de quem manda volume alto um botĂŁo de descadastro em um clique e autenticação do domĂnio remetente. A bronca de 1978 virou regra de servidor.
|
|
Repare no efeito prĂĄtico. Nas redes sociais, quem decide se o seu texto chega ĂŠ um algoritmo treinado para prender o usuĂĄrio na tela. Na caixa de entrada, quem decide ĂŠ o prĂłprio leitor, com dois botĂľes: abrir ou reclamar. O filtro do email nasceu da vontade de quem recebe.
|
|
Por essa razĂŁo o canal sobreviveu a cada onda que prometeu enterrĂĄ-lo. O Orkut fechou em 2014. O Google+ fechou em 2019. O Vine, aplicativo de vĂdeos curtos, encerrou as atividades em 2017. Gente que construiu audiĂŞncia nessas plataformas perdeu o acesso aos prĂłprios seguidores do dia para a noite, porque o seguidor morava no servidor de outra empresa.
|
|
O endereço de email não mora no servidor de ninguÊm em particular. Ele funciona por um protocolo aberto, o SMTP (o padrão tÊcnico que os servidores usam para trocar mensagens entre si), publicado em 1982. Você pode trocar de ferramenta de envio dez vezes e levar a lista inteira junto.
|
|
Nota do HC
Eu aposto o meu negĂłcio na caixa de entrada por um motivo que essa histĂłria deixa claro: ĂŠ o Ăşnico canal em que o leitor tem poder real sobre mim. Esse poder me obriga a escrever melhor todo dia, e eu prefiro um patrĂŁo exigente e estĂĄvel a um algoritmo generoso hoje e mudo amanhĂŁ.
|
|
| |
|
Um canal em que o leitor pode reclamar dura mais que um canal em que sĂł o algoritmo decide.
|
|
| |