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Henrique Carvalho  Alquimia da Mente ED 304

O primeiro email em massa tem 48 anos e levou bronca no mesmo dia

Em 1978, um vendedor mandou um convite para 400 endereços e descobriu, em horas, a regra que o feed ainda não aprendeu.

O primeiro email em massa tem 48 anos e levou bronca no mesmo dia

Um terminal verde e 400 endereços na tela

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Em 3 de maio de 1978, Gary Thuerk, gerente de marketing da Digital Equipment Corporation (a DEC, fabricante de computadores de Massachusetts), mandou um único convite para cerca de 400 endereços da Arpanet. A primeira resposta registrada não foi uma inscrição. Foi uma reclamação formal do órgão militar que administrava a rede.

O convite chamava para duas demonstraçþes de um computador novo na Califórnia. Thuerk olhou o diretório impresso da Arpanet, a rede de pesquisa financiada pelo Departamento de Defesa americano, e concluiu que ligar para cada cientista daria trabalho demais. Escrever uma mensagem só e mandar para todos parecia mais eficiente.

Na prĂĄtica, ele inventou o que hoje a gente chama de spam (mensagem em massa que ninguĂŠm pediu). E levou a primeira bronca da histĂłria do formato no mesmo dia.

Pare um minuto nas datas. O Facebook nasceu em 2004. O Twitter, em 2006. O Instagram, em 2010. Quando Thuerk apertou o botĂŁo de enviar, faltavam 26 anos para a primeira dessas redes existir, e o email jĂĄ tinha regra de convivĂŞncia, jĂĄ tinha fiscal e jĂĄ tinha gente disposta a reclamar por escrito.

Eu acho essa história mais útil que qualquer manual de entregabilidade. Ela mostra que o email não é um canal da moda que envelheceu. É o canal mais velho de pé na internet, e ficou de pé justamente porque, desde o primeiro abuso, o leitor teve voz para dizer: aqui não.

Toda rede social que veio depois prometeu substituir a caixa de entrada. Nenhuma conseguiu. As redes trocam de regra a cada temporada, mudam o formato que entrega, escondem o seu texto atrås de um leilão. A caixa de entrada continua no mesmo endereço desde os anos 1970.

Hoje eu te conto o que aconteceu com Thuerk depois da reclamação, por que a bronca protegeu o canal ao longo de quatro dÊcadas, e o que você faz com essa herança se tem uma lista, ou se ainda vai começar uma.

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I  O Que Eu Vi

A mensagem que saiu da DEC

 

A DEC era, em 1978, uma das maiores fabricantes de computadores do mundo, e ficava a uma costa inteira de distância do mercado que Thuerk queria atingir. A empresa tinha um escritório forte no leste americano e queria vender o DECSYSTEM-20, uma måquina de grande porte, para universidades e centros de pesquisa da Califórnia, justamente os lugares que estavam conectados à Arpanet.

Thuerk tinha uma vantagem rara. A DEC fazia parte da rede, e ele tinha em mãos o diretório com os endereços de quem estava nela. Junto com o engenheiro Carl Gartley, que digitou os endereços no sistema, ele preparou um texto convidando para duas apresentaçþes, uma em Los Angeles e outra em San Mateo.

Aqui entra o primeiro detalhe tÊcnico que mostra como o canal era jovem. O programa de email da Êpoca tinha um limite no campo de destinatårios. Os endereços que não couberam no cabeçalho transbordaram para o corpo da mensagem. Quem abriu viu um paredão de nomes antes de chegar ao convite.

Em poucas horas, chegou a resposta do Major Raymond Czahor, da Defense Communications Agency, a agência militar responsåvel pela rede. Ele classificou a mensagem como uma violação flagrante das regras de uso da Arpanet, que existia para pesquisa e para assuntos do governo, nunca para propaganda comercial. A DEC foi avisada de que aquele envio não podia se repetir.

Os próprios usuårios tambÊm reagiram. Alguns defenderam Thuerk, dizendo que a informação sobre um computador novo interessava a quem trabalhava com computadores. A maioria se irritou com a caixa ocupada por um anúncio que ninguÊm tinha solicitado.

“O meio ĂŠ a mensagem.”

Marshall McLuhan ¡ Understanding Media, 1964

 

McLuhan escreveu a frase catorze anos antes do convite da DEC, e ela cabe inteira no episódio. O conteúdo de Thuerk era razoåvel: um computador, uma demonstração, um endereço. O que irritou foi a forma de chegar. Ele usou um canal pessoal como se fosse um outdoor, e o leitor sentiu a diferença na hora.

E o desfecho de Thuerk? Ele nunca foi preso nem demitido pelo episódio. Seguiu carreira em marketing e, dÊcadas depois, passou a contar a história em entrevistas, aceitando sem constrangimento o apelido de pai do spam. Quanto às vendas, ele afirmou que a campanha rendeu negócios, mas nenhum número de vendas foi publicado pela DEC na Êpoca, e eu não encontrei registro independente que confirme a cifra que ele cita. Fica registrado o que se sabe: o envio aconteceu, a reclamação aconteceu, e a pråtica foi proibida na rede.

O primeiro email em massa da história ensinou duas liçþes no mesmo dia: o canal alcança muita gente, e cada pessoa alcançada pode reclamar.

 
 
 

II  O Mecanismo

Por que a bronca protegeu o canal

 

A palavra spam só grudou nesse tipo de mensagem muitos anos depois. Ela vem de um esquete do grupo britânico Monty Python, de 1970, em que um coro repete a marca de uma carne enlatada atÊ ninguÊm conseguir conversar no restaurante. Usuårios de fóruns e de jogos de texto online, nos anos 1980 e 1990, adotaram o termo para qualquer repetição que atropela a conversa alheia.

O mais interessante Ê o que veio junto com a palavra. A reclamação do Major Czahor fixou um princípio que atravessou o crescimento inteiro da internet: quem recebe tem direito de recusar, e quem envia responde pelo que manda.

Esse princípio virou infraestrutura. Hoje, todo provedor grande de email mede quantas pessoas marcam a sua mensagem como indesejada. Se a taxa sobe, as suas próximas mensagens vão para a pasta de lixo, inclusive para quem queria recebê-las. Em fevereiro de 2024, o Google e o Yahoo passaram a exigir de quem manda volume alto um botão de descadastro em um clique e autenticação do domínio remetente. A bronca de 1978 virou regra de servidor.

Repare no efeito prĂĄtico. Nas redes sociais, quem decide se o seu texto chega ĂŠ um algoritmo treinado para prender o usuĂĄrio na tela. Na caixa de entrada, quem decide ĂŠ o prĂłprio leitor, com dois botĂľes: abrir ou reclamar. O filtro do email nasceu da vontade de quem recebe.

Por essa razĂŁo o canal sobreviveu a cada onda que prometeu enterrĂĄ-lo. O Orkut fechou em 2014. O Google+ fechou em 2019. O Vine, aplicativo de vĂ­deos curtos, encerrou as atividades em 2017. Gente que construiu audiĂŞncia nessas plataformas perdeu o acesso aos prĂłprios seguidores do dia para a noite, porque o seguidor morava no servidor de outra empresa.

O endereço de email não mora no servidor de ninguÊm em particular. Ele funciona por um protocolo aberto, o SMTP (o padrão tÊcnico que os servidores usam para trocar mensagens entre si), publicado em 1982. Você pode trocar de ferramenta de envio dez vezes e levar a lista inteira junto.

Nota do HC

Eu aposto o meu negĂłcio na caixa de entrada por um motivo que essa histĂłria deixa claro: ĂŠ o Ăşnico canal em que o leitor tem poder real sobre mim. Esse poder me obriga a escrever melhor todo dia, e eu prefiro um patrĂŁo exigente e estĂĄvel a um algoritmo generoso hoje e mudo amanhĂŁ.

 

Um canal em que o leitor pode reclamar dura mais que um canal em que sĂł o algoritmo decide.

 
 

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III  O Que Eu Faria

O que eu faria com essa herança

 
Henrique Carvalho

O piano antes da edição, ritual de todo dia

 

Se você tem uma lista, ou vai começar uma, a história de Thuerk serve de checklist. Ele errou em quatro pontos, e cada um deles tem uma correção simples.

• Primeiro erro: ele escreveu para quem nunca pediu. Os 400 endereços vieram de um diretório, não de um pedido. A correção é só mandar para quem digitou o próprio endereço e confirmou. Lista comprada ou raspada repete 1978 em escala maior.

• Segundo erro: o leitor não sabia quem era o remetente nem por que estava recebendo aquilo. A correção é dizer, logo no primeiro email, o que chega, com que frequência e por que a pessoa está ali.

• Terceiro erro: a mensagem chegou com um paredão de endereços na frente do conteúdo. A correção é técnica e humana ao mesmo tempo: cada leitor recebe o seu email individual, personalizado, e o texto começa pelo assunto que interessa.

• Quarto erro: não havia saída. Em 1978, ninguém conseguia se descadastrar de nada. A correção é colocar o link de descadastro visível no rodapé de toda edição. Parece contraintuitivo facilitar a saída, mas quem pode sair e fica está ali por escolha, e é esse leitor que abre amanhã.

Tem um quinto ponto, e esse Thuerk acertou. Ele percebeu antes de quase todo mundo que uma mensagem escrita uma vez podia chegar a centenas de pessoas sem custo extra por pessoa. Essa economia continua valendo. Escrever para mil leitores custa o mesmo esforço que escrever para dez. O canal mantÊm a escala que ele enxergou, só que agora com permissão.

TambĂŠm vale olhar para a sua lista com o olho do Major Czahor. Quem fiscaliza hoje ĂŠ o filtro do Gmail, e ele lĂŞ os sinais que os seus leitores deixam. Leitor que nĂŁo abre hĂĄ seis meses pesa contra vocĂŞ. Remover quem sumiu parece perder audiĂŞncia, mas protege a entrega para quem continua lendo.

E se você ainda não tem lista, a herança Ê mais simples. O canal que existia antes de todas as redes sociais vai continuar existindo depois das que estão no ar hoje. Começar uma lista com dez pessoas que pediram vale mais que mil seguidores alugados numa plataforma que pode mudar a regra na próxima segunda.

Thuerk queria vender computadores e acabou deixando, sem querer, a regra mais importante do email: o leitor manda. Quem respeita a regra ganha um canal com quase cinquenta anos de estrada e nenhum sinal de aposentadoria.

Hoje, antes de dormir: abra a ferramenta da sua lista, confira se o link de descadastro aparece no rodapÊ do último envio e anote quantos leitores não abrem nada hå 90 dias. Uma verificação, um número anotado, em dez minutos.

 

“O canal mais velho da internet continua de pĂŠ porque o leitor sempre pĂ´de dizer nĂŁo.”

Henrique Carvalho

Forte abraço,

Henrique Carvalho

🎹 Escrevi esta edição ouvindo Sky Dream, no piano.

 
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Em que ano Gary Thuerk mandou o primeiro email em massa da Arpanet?

A1971
B1978
C1982
D1994

Resultado da última edição: 14% acertaram.

Defenda seu tĂ­tulo de Alquimista (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

 
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