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Alquimia da Mente · nº 317 · 5 de novembro de 2026

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O professor de derivativos e Steve Jobs na mesma noite

Henrique Carvalho

O professor abriu o livro na primeira página e começou a ler.

Parágrafo por parágrafo. Folha por folha. Tudo teoria, nenhuma prática.

Era a aula de derivativos financeiros, no curso de Ciências Econômicas da UFRJ. Uns dois anos e meio de curso.

A sala estava cheia. Meus amigos, interessados no tema. Ninguém mais interessado do que eu.

Derivativos são a parte um pouco mais complexa do mercado: opções de ações. Já operava opções na prática. Fazia venda coberta com ações da Vale.

O professor tinha doutorado no assunto. Esperava a aula mais maravilhosa da minha vida.

Técnicas para aplicar nos meus próprios investimentos. Uma conversa de igual para igual com quem domina o tema.

Na minha cabeça, era a única chance de a faculdade se salvar.

A gente se olhava. Por que ele está lendo? Por que tanto texto e nenhum exemplo de quem opera?

Chamo aquele dia de dia D. O dia do chega.

Todo mundo tem um. O dia em que a resposta que você esperava havia anos chega, e ela é “não faço ideia”.

Até ali, a faculdade tinha sido uma longa espera por uma aula assim. Passei na segunda tentativa.

Os professores falavam de taxa de juros de 1960 enquanto o mundo vivia a crise de 2008.

Na mochila, nenhum livro de macroeconomia nem de cálculo. Levava livros de como investir na bolsa e de como analisar o preço de uma opção.

Era o que me interessava, e era o que a aula de derivativos prometia.

Carregava livros para a aula, e não eram de macroeconomia nem de cálculo. Eram de como investir na bolsa, de como analisar o preço de uma opção.

Dormia em várias aulas. Acordava quando o livro caía no chão e a professora olhava.

O CR era 3,6. Repetia mais matérias do que passava. Sempre mediano, sempre na média, e feliz com a média.

Eram três horas de ônibus até lá. Chegava tão estressado da viagem que às vezes perdia a visão por alguns instantes. Precisava dormir para voltar ao normal.

Ia olhando para o chão, e achava moedas todo dia. Juntava até dar quinhentos reais e trocava por cédulas no mercado.

Foi com as moedas do chão, mais dois mil reais que meu pai deu num aniversário, que comecei a investir. As opções da Vale vinham dali.

Na faculdade, ninguém queria mais me ouvir falar de ações. O blog de investimentos, que tinha criado no meu aniversário de 2009, nasceu para ter com quem conversar.

E tomava uma proporção muito maior do que a faculdade.

Naquela aula, ia dar certo. Um doutor em derivativos na minha frente, e uma operação minha aberta na Vale para discutir com ele.

Ele leu o livro a aula inteira.

 

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Na mesma noite, abri o YouTube

Cheguei em casa para jantar.

Do nada, abri o YouTube. O primeiro vídeo que apareceu: Steve Jobs, em 2005, no discurso para os formandos de Stanford.

Coincidências acontecem. Naquele dia, duas aconteceram.

Ele abre dizendo que vai contar três histórias da vida dele. Nada mais. Três histórias.

A de ligar os pontos olhando para trás. A de amor e perda, quando foi demitido da própria empresa.

E a da morte, depois do diagnóstico.

Na primeira história, ele conta que largou a faculdade depois de seis meses. Ficou mais um ano e meio assistindo só às aulas que queria.

Uma delas era de caligrafia. Dez anos depois, aquela aula virou a tipografia do primeiro Mac. Os pontos só se ligam olhando para trás.

Na segunda, aos trinta anos, foi demitido da empresa que fundou. Fundou outras duas, e uma delas o levou de volta.

Na terceira, ele pergunta ao espelho, todo dia, se faria o que vai fazer hoje caso fosse o último dia da vida dele.

Não é um discurso sobre tecnologia. É sobre ser quem você é, e não querer agradar os outros.

Fiquei ali, no jantar, com o vídeo tocando e a aula ainda na cabeça.

Tinha ouvido falar do discurso. Nunca tinha parado para ouvir um homem dizer, com calma, que largar a faculdade foi uma das melhores decisões que ele tomou.

De um lado, um homem que fundou uma empresa na garagem, foi demitido dela e voltou. Do outro, um doutor que leu um livro para uma sala cheia.

Aquele vídeo mudou o meu dia. Mas antes de contar o que ele disse, preciso voltar à sala.

Professor, o que o senhor acha desta operação?

Esperei o fim da aula e fui falar com ele.

“Professor, eu faço esta operação aqui de venda coberta, estou fazendo assim na Vale. O que o senhor acha dela?”

Era a pergunta mais básica possível. A versão mais simples de derivativos, uma operação que qualquer doutor no assunto conheceria.

Ele respondeu: “Desculpa, eu não faço a menor ideia do que você está falando.”

Fiquei com a cara que você imagina. Como assim? Um professor com doutorado não sabe a prática?

Sabia a teoria toda. A prática, não. E a prática era o que eu tinha ido buscar ali.

Ele sabia a teoria toda. A prática, não.

Hoje, com distância, entendo que ele estava ali para explicar uma matéria. Mas aquilo não me representava.

Gosto de estudar o que amo e de mostrar na prática como fazer. Walk the talk. Nunca só teoria.

Nada contra professor, nada contra faculdade. Não estou dizendo que a teoria não é importante. Mas a prática, para mim, era muito mais relevante.

Voltei pelo corredor olhando para o chão. E pensava: será que é esse o tipo de profissional que eu quero ser?

Alguém que sabe muito de teoria, não aplica nada na prática e não tem poder de transformar a vida de outras pessoas a partir daquilo.

Acredito em resultados. Resultados falam muito mais do que um diploma. Atitudes falam muito mais do que palavras.

A maioria dos meus amigos ganhava setecentos reais num estágio. Pensei: quer saber? Estou vivendo um sonho que não é o meu.

Não fazia sentido pegar um canudo sem conseguir mostrar resultado na prática. O mercado reconhece experiência que produz resultado palpável, mensurável e consistente.

Naquele corredor, tomei a decisão de largar a faculdade de economia.

Ainda não tinha dito a ninguém. Peguei o ônibus. Três horas até em casa, desta vez sem olhar para o chão.

Às vezes o professor faltava, e eram seis horas de ônibus jogadas fora, que podiam ter virado posts. Naquele dia ele veio. Foi pior.

 

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O seu tempo é limitado

De volta ao jantar, ao vídeo e a uma frase em especial.

“O seu tempo é limitado, então não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa.”

Steve Jobs, discurso aos formandos de Stanford, 2005

E logo depois: não deixe que a opinião dos outros cale a sua voz interior.

Tocou profundamente o meu coração.

Percebi que estava na faculdade para agradar os meus pais, a minha família. Um caminho tradicional que eles tinham seguido e queriam que eu seguisse.

Minha família inteira se formou em faculdade pública. Pai, irmão, tios e primos: engenheiros, quase todos, quase todos na Petrobras.

Noventa por cento da família é de engenharia. O filho que foi para economia já era o desvio. O que largou a economia virou o desvio do desvio.

O de economia era eu, por causa das planilhas e das ações do meu pai. Via meu pai operando ações desde os meus doze, quinze anos. Queria fazer o mesmo.

Era bom em matemática, mas brincava de Banco Imobiliário, de Railroad Tycoon e de SimCity. Jogos de administrar, nunca de construir.

A faculdade era o jeito deles. A teoria era o jeito deles. E a vida que estava vivendo ali era a de outra pessoa.

O sonho era deles, e eu o vivia com a cara de quem gosta.

Quatro, cinco anos da vida numa sala, por um canudo. Jobs também tinha largado a faculdade. E ali estava ele, falando para os formandos de Stanford.

A morte é a melhor invenção da vida, ele disse. Limpa o velho para abrir espaço ao novo. Naquela noite, o velho era a faculdade.

Sabia que, a partir daquele momento, não estava mais na faculdade.

Não tinha sim nem não. Não tinha preto nem branco. Larguei, e é o que há.

Uma aula fechou a porta. Um discurso abriu outra. As duas cenas se encontraram na mesma mesa de jantar.

Vou só trancar, disse aos meus pais

Para os meus pais, disse que ia só trancar um semestre. Para pensar melhor.

Por dentro, já estava decidido. Não tinha volta. Não era uma situação negociável.

A família foi contra. Extremamente contra.

Os amigos falavam: “Se você for preso, não vai ter cela especial.” Se o motivo para ficar quatro anos numa faculdade é uma cela especial, o que você está fazendo lá?

Virei a ovelha negra. Nos encontros de família, a pergunta era sempre a mesma: “E aí, quando você vai arrumar um trabalho?” “Esse site aí não é sério.”

Os amigos diziam que era maluquice. Volta para a faculdade, arruma um emprego, faz um estágio. Qualquer trabalho que não fosse ficar sentado na frente do computador.

Minha avó, doce como ela só, durante anos me dizia, com a maior seriedade: “Meu neto, se tudo der errado, você pode trabalhar como pedreiro aqui na cidade.”

E perguntava quando o diploma ia sair. “Vó, não vai sair.”

É difícil ouvir tudo aquilo quando você ainda não tem resultado. Você diz que tem convicção. Não consegue garantir que vai dar certo.

Fazia faculdade sem gostar e escrevia no blog havia três anos sem ganhar um centavo. Queria viver de escrita e não sabia como.

Toda noite era um pesadelo pensando em como ganhar dinheiro escrevendo.

Em 2011, divulguei o ebook de um amigo como afiliado. Em cinco dias, ganhei o que os amigos ganhavam em seis meses de estágio.

Abriu os olhos. Passei três meses montando o meu.

Larguei de vez em 2012, depois de quatro anos me arrastando.

Quando saí, o blog já tinha virado um ebook de investimentos, lançado em março daquele ano. E o ebook já pagava as contas.

Ser o estranho no ninho dói. Gente próxima julga, desacredita, diz qual é o caminho certo. E muitas vezes você percorre o seu sozinho.

As duas cenas daquele dia me ensinaram o mesmo, por caminhos opostos.

O professor me ensinou com quem não aprender: com quem só leu sobre o assunto. Jobs me ensinou a não esperar o incentivo dos outros.

Seja o primeiro a acreditar no seu sonho. Ninguém vai acreditar antes de você. A autoconfiança é o maior bem de quem segue um caminho fora do tradicional.

Escrevi “Stay hungry, stay foolish” no mural da minha mesa. E, a partir do dia em que larguei a faculdade, comecei a estudar o que torna um conteúdo memorável.

A escolha de com quem aprender virou critério para tudo o que fiz depois. Quem me ensina precisa operar o que ensina.

Vale até para quem contrato. Em nenhuma entrevista perguntei a formação de alguém. Procuro atitude.

Hoje, a sua parte. Liste de quem você está aprendendo agora. Ao lado de cada nome, uma pergunta só: essa pessoa opera ou só leu?

Ao lado de quem opera, escreva o que a pessoa fez na última semana. Se não souber, pergunte. Quem opera adora contar.

Se a lista tiver só nomes de quem leu, você está na aula de derivativos. Procure um corredor.

Quem só leu responde “não faço ideia” na hora em que você mais precisa.

Uma aula me mostrou o que não queria ser. Um discurso me mostrou que o tempo era meu. Foi no mesmo dia.

 

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Pergunta da edição

Qual operação o Henrique perguntou ao professor de derivativos no fim da aula?

A) Compra de ações da Petrobras
B) Venda coberta de opções com ações da Vale
C) Compra de título do Tesouro
D) Cota de fundo imobiliário
 

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Responde este email contando o seu dia do chega: a aula, a reunião ou a conversa em que você percebeu que estava vivendo a vida de outra pessoa. Eu leio todas as respostas.

Forte abraço,
Henrique Carvalho

P.S. O curso nasceu daquele corredor: aprender escrita com quem escreve e vende todo dia, nunca com quem só leu sobre o assunto. Nesta semana ele vai com o Escritor Milionário de bônus, e a oficina fica aqui.

Alquimia da Mente · Henrique Carvalho · Balneário Camboriú, SC

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