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I O Que Eu Vi
Um servidor ligado num laboratório do Novo México
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Paul Ginsparg tinha 35 anos e trabalhava com teoria de cordas (o ramo que tenta descrever as partículas como cordas vibrando) quando ouviu, numa conferência de 1991, a queixa de uma colega: a caixa de correio dela não comportava os artigos que chegavam por email, e os anexos estouravam a cota.
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Ele voltou para Los Alamos e escreveu um programa simples. O autor mandava o artigo para um endereço, o servidor guardava o arquivo, e todo inscrito recebia um aviso com o título e o resumo. Quem quisesse o texto inteiro pedia de volta, também por email.
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O plano era modesto. Ginsparg contou depois que imaginava uma lista para algumas centenas de especialistas da área dele. Em poucos meses, físicos de outras especialidades pediram endereços próprios, e o servidor ganhou seções para matéria condensada, astrofísica e física nuclear.
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Em 1993 o arquivo ganhou interface na web. Em 1998 recebeu o nome arXiv, com o X no lugar do chi grego. Em 2001 Ginsparg levou o projeto para a Universidade Cornell, onde ele mora até hoje.
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Repare na ordem dos acontecimentos. Nenhum comitê aprovou o canal antes de ele funcionar. Ele funcionou primeiro, e a aprovação veio pelo uso: cada físico que subia um artigo transformava o servidor num hábito um pouco mais difícil de largar.
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O que atraía os autores era velocidade e prioridade. O carimbo de data do arXiv passou a registrar quem chegou primeiro a um resultado. Numa disciplina onde duas equipes perseguem a mesma partícula ao mesmo tempo, aquele carimbo vale tanto quanto a publicação formal.
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O custo também ajudou. Subir um artigo era gratuito para o autor e ler era gratuito para qualquer pessoa com conexão, de um estudante em Nairóbi a um professor em Princeton. O físico de uma universidade pequena, que nunca entraria na lista de fotocópias de um grande laboratório, passou a ler o mesmo texto no mesmo dia que os veteranos.
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Em 2002 a Fundação MacArthur deu a Ginsparg a bolsa que a imprensa americana chama de bolsa dos gênios. O motivo citado foi exatamente o arquivo.
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O canal não pediu licença para existir; ganhou legitimidade sendo usado todo dia por quem precisava dele.
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II O Mecanismo
Perelman e a prova que dispensou a revista
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O melhor teste de um canal próprio é perguntar se ele aguenta o peso máximo. Em novembro de 2002, o matemático russo Grigori Perelman respondeu a pergunta.
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Ele subiu ao arXiv um artigo de 39 páginas sobre o fluxo de Ricci (uma técnica que deforma formas geométricas aos poucos, como quem alisa um tecido). Em 2003 vieram mais dois textos. Juntos, eles continham o caminho para provar a Conjectura de Poincaré, problema aberto desde 1904 e um dos sete Problemas do Milênio do Instituto Clay de Matemática.
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Perelman não mandou os artigos para revista nenhuma. Nunca mandou. Os matemáticos do mundo inteiro leram direto no repositório, e equipes independentes passaram anos conferindo cada passo.
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O reconhecimento veio sem revista. Em 2006 a União Matemática Internacional ofereceu a ele a Medalha Fields, e ele recusou. Em 2010 o Instituto Clay ofereceu o prêmio de um milhão de dólares, e ele recusou também. A prova estava no arXiv, e para ele bastava.
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O caso desmonta a ideia de que o canal próprio serve só para rascunho. O resultado matemático mais celebrado da década foi publicado num servidor aberto, sem parecer formal e sem fila, e a comunidade aceitou porque o texto se sustentava.
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As revistas se adaptaram. Hoje a maioria das publicações de física aceita artigo que já circula no arXiv, e muitas pedem o link na submissão. A editora virou camada de certificação por cima de um canal que ela não controla.
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Esse movimento me interessa mais que o servidor em si. Quem tinha o poder de decidir quando um texto existia perdeu a exclusividade, sem guerra e sem manifesto. O poder migrou para quem mantinha o cano funcionando, um dia de cada vez.
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“Para ganhar a vida, um criador precisa conquistar apenas mil fãs fiéis.”
Kevin Kelly · 1,000 True Fans, 2008
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Kelly escreveu pensando em músicos e artistas, mas a lógica vale para o arXiv. Os primeiros inscritos de Ginsparg eram poucas centenas de especialistas que precisavam ler o trabalho uns dos outros. Aquele núcleo pequeno e fiel sustentou o crescimento que veio depois.
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Nota do HC
Eu acho que a maioria de quem escreve hoje vive no corredor de espera dos físicos de 1990, só que trocou a revista pelo algoritmo. Publica e espera um sistema alheio decidir se o texto vai ser visto. A lição do arXiv é tirar essa decisão da mão de terceiros, e eu escrevo esta newsletter todo dia pela mesma razão.
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