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I O Que Eu Vi
A revista que tinha uma pagadora só
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Victoria Ocampo nasceu em Buenos Aires em 1890, filha mais velha de uma das famílias mais ricas da Argentina. Cresceu entre governantas francesas e inglesas, leu Dante antes de ler os poetas do próprio país e passou a vida inteira tentando juntar as duas metades da sua formação.
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Em 1929, o escritor americano Waldo Frank passou por Buenos Aires e insistiu com ela: a América precisava de uma revista que fizesse a ponte entre o norte e o sul. Ocampo topou, e decidiu bancar sozinha. O primeiro número de Sur saiu no verão de 1931. O título, segundo a própria Ocampo, veio de uma sugestão do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, por telefone.
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O conselho de redação reunia Borges, Waldo Frank, Ortega e outros nomes de peso. O cheque tinha uma assinatura.
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O arranjo parece generoso e era, sobretudo, estratégico. Ocampo entendia que conselho opina e pagador decide. Ao manter o caixa inteiro na mão, ela garantia que nenhuma discordância de sumário virasse ameaça de corte. Os colaboradores podiam brigar com ela à vontade, e brigavam, porque a revista não dependia do humor de nenhum deles para chegar à gráfica no mês seguinte.
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A revista pagava colaborador, tradutor, papel bom e impressão caprichada. Vendia pouco, porque literatura séria em espanhol, nos anos 1930, era mercado de poucos milhares de leitores. O buraco entre custo e venda saía do patrimônio de Ocampo, mês a mês.
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Em 1933 ela abriu também a Editorial Sur, para publicar em livro o que a revista apresentava em trecho. Foi por essa editora que saiu, em 1936, a tradução de Um teto todo seu, de Virginia Woolf, com tradução de Borges. A editora ampliou a conta, porque livro exige tiragem, estoque e distribuição pagos antes da primeira venda.
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O patrimônio encolheu, e ela foi vendendo peças. Joias de família, terrenos, imóveis da herança. Os biógrafos registram as vendas sem uma planilha completa: os valores exatos de cada transação não aparecem nas fontes públicas, e ninguém sabe o total gasto em quatro décadas. O que se sabe com segurança é a direção do dinheiro, sempre da casa dela para a gráfica.
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A independência da Sur tinha endereço: o cofre de uma mulher que aceitou empobrecer para não dever nada a ninguém.
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II O Mecanismo
O que o dinheiro dela comprou
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Pagar sozinha deu a Ocampo uma liberdade que nenhuma outra revista latino-americana da época tinha. Ela publicou quem quis, na ordem que quis, sem consultar comprador de espaço.
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A Sur trouxe para o espanhol Woolf, Camus, Huxley, Graham Greene, Jean-Paul Sartre, Federico García Lorca. Ocampo foi amiga e correspondente de Woolf, que conheceu em Londres em 1934. Publicou Borges quando Borges ainda vendia pouco, e o círculo da revista reuniu Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo, irmã de Victoria.
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A liberdade custou também fora do caixa. Em 1953, durante o governo de Juan Perón, Ocampo foi presa e passou cerca de 26 dias na prisão feminina do Buen Pastor, aos 62 anos. A revista sobreviveu porque não dependia de verba oficial que pudesse ser cortada. O regime podia prender a dona, mas não tinha botão para desligar o patrocínio.
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Uma frase escrita por Woolf, e que Ocampo levou para o espanhol pela sua editora, resume a aritmética inteira:
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“Uma mulher precisa ter dinheiro e um quarto só seu se quiser escrever ficção.”
Virginia Woolf · Um teto todo seu, 1929
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Woolf falava de autoria. Ocampo aplicou a regra à publicação. Para escrever, um quarto pago. Para publicar o que se quer, uma gráfica paga.
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A Sur saiu com regularidade até 1970. Depois vieram números esparsos, e a última edição circulou em 1992, treze anos após a morte de Ocampo, em 1979. Em 1977 ela se tornou a primeira mulher eleita para a Academia Argentina de Letras. A casa dela em San Isidro, a Villa Ocampo, foi doada à UNESCO em 1973, ainda em vida.
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Nota do HC
Eu admiro Ocampo e não recomendo copiar o modelo dela ao pé da letra. Vender joia para pagar gráfica funciona para quem nasceu com joia, e ela mesma viu o patrimônio minguar. A lição que eu levo é outra: ela sabia exatamente quanto custava ser livre, e escolheu pagar com os olhos abertos.
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Liberdade editorial se compra todo mês, e a fatura sempre chega para alguém.
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