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I O Que Eu Vi
A noite que o governo não conseguia desligar
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Fela Anikulapo Kuti nasceu em Abeokuta, em 15 de outubro de 1938, filho de Funmilayo Ransome-Kuti, ativista que liderou mulheres contra impostos coloniais. Estudou música em Londres, voltou à Nigéria e, no começo dos anos 1970, já tinha o som pronto: o afrobeat (mistura de highlife ganês, jazz e funk americano, com músicas que passavam de quinze minutos).
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O formato longo já brigava com a rádio antes da censura. Uma faixa de vinte minutos não cabe entre dois intervalos comerciais. Fela compunha para o palco, e o palco tinha casa própria.
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O primeiro Afrika Shrine funcionou no Empire Hotel, no bairro de Surulere, a partir de 1970. Depois, mudou para Ikeja, na rua Pepple. O endereço trocou; o ritual, não.
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O Shrine abria várias noites da semana, e havia uma noite especial que o público chamava de Sunday Jump, o domingo de casa cheia. Fela entrava tarde, tocava horas, parava para falar de política entre uma música e outra. Ele chamava as falas de "yabis" (gozação, na gíria de Lagos), e eram nelas que os generais viravam piada.
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A casa tinha um altar com fotos de líderes africanos, como Kwame Nkrumah, primeiro presidente de Gana. Fela fazia uma cerimônia antes de tocar. Quem ia ao Shrine não ia a um show. Ia a um encontro com hora certa, regra própria e linguagem própria.
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Agora junte as duas pontas. Em 1976, sai Zombie. O disco vira hino nas ruas: as pessoas imitavam os soldados marchando, gritando o refrão na cara deles. A rádio estatal corta Fela. E a plateia do Shrine segue no mesmo endereço, na mesma noite.
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A rádio decidia o que tocava no país; o Shrine decidia o que acontecia às onze da noite de domingo em Ikeja, e ali o governo não tinha voto.
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O corte da transmissão tirou de Fela os ouvintes casuais, aqueles que ouviam por acaso no táxi.
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A conta é cruel para quem dependia só da rádio. O ouvinte casual nunca escolheu Fela: escolheu a estação, e Fela vinha junto. Quando a estação parou de tocar, ele simplesmente ouviu outra pessoa, sem perceber a troca. Os de ritual ficaram. Eram eles que sustentavam a casa, a banda de dezenas de músicos e a próxima gravação.
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II O Mecanismo
O preço de Zombie e o que sobrou de pé
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O governo não parou na rádio. Em 18 de fevereiro de 1977, cerca de mil soldados cercaram a Kalakuta Republic, a comunidade murada onde Fela morava com a família e a banda, e que ele tinha declarado independente da Nigéria.
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Os soldados queimaram a casa e o estúdio, espancaram moradores e jogaram a mãe de Fela, então com 76 anos, de uma janela do andar de cima. Funmilayo Ransome-Kuti morreu em abril de 1978, em decorrência dos ferimentos. A comissão do governo que investigou o ataque culpou um "soldado desconhecido".
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Fela respondeu com música. Gravou Unknown Soldier e, em 1979, carregou um caixão até o quartel de Dodan Barracks, sede do governo militar, para entregar ao general Olusegun Obasanjo. A cena virou outra canção, Coffin for Head of State.
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Repare na ordem dos fatos. Sem rádio, com a casa incendiada e a mãe morta, Fela continuou tocando e continuou lotando. O Shrine voltou a abrir. As canções contra o regime, que nenhuma emissora pública tocaria, chegavam ao público pela porta da casa de shows e pelo disco vendido na rua.
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“A música é a arma do futuro.”
Fela Kuti · Music Is the Weapon (documentário de Stéphane Tchal-Gadjieff e Jean-Jacques Flori), 1982
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A arma de Fela tinha munição em lugar fixo. A transmissão podia ser cortada por um decreto; um encontro semanal com milhares de pessoas que já sabiam o caminho exigia fechar a casa, prender o dono e convencer a cidade a esquecer o próprio domingo. O governo prendeu Fela várias vezes, inclusive em 1984, quando ele ficou quase dois anos detido. A plateia esperou.
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Em 1984, a acusação foi de tráfico de moeda estrangeira, e a Anistia Internacional o declarou prisioneiro de consciência. Ele saiu em 1986, quando um novo governo militar o soltou. Voltou ao palco quase de imediato, com a mesma banda e o mesmo repertório proibido nas rádios.
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Nota do HC
Eu acho que a gente subestima o calendário. Todo mundo fala de alcance, de quantas pessoas a mensagem atinge, e quase ninguém fala de hora marcada, que é o que faz alguém voltar sem ser chamado. Fela perdeu o alcance inteiro de uma vez e sobreviveu com o ritual.
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Fela Kuti morreu em 2 de agosto de 1997, em Lagos, de complicações ligadas à aids. Cerca de um milhão de pessoas foram ao enterro, segundo a imprensa nigeriana da época. O Shrine original fechou com a morte dele.
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Antena se desliga por decreto; costume com hora e endereço precisa que a cidade inteira esqueça o caminho.
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