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William Blake morreu pobre porque não cabia em nenhuma ranhura
Pintura, poesia, romance: cada obra cai num trilho que a guarda. A que não cabe em nenhum some, e o feed funciona igual.
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Moedas caindo nas ranhuras, uma sobrando na mesa
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Em 2006, Matthew Salganik, Peter Dodds e Duncan Watts, da Universidade Columbia, colocaram 14.341 pessoas para ouvir 48 músicas de bandas desconhecidas, divididas em oito mundos paralelos. A mesma música foi campeã num mundo e ficou no meio da tabela em outro, e a única variável trocada era a contagem de downloads que cada grupo via.
A qualidade pesava. Só que pesava menos do que a posição que a música ganhava nos primeiros cliques.
Guarde essa imagem de fila, porque ela explica um jeito de pensar o ecossistema da arte que eu não consigo mais desver.
Lembra do cofrinho de banco que separa moedas? Você despeja um punhado no topo, e cada moeda desce até a ranhura do próprio diâmetro. A de um real cai num tubo, a de cinquenta centavos cai no tubo seguinte, e cada tubo sai contado, embalado e guardado.
A arte passa por uma máquina parecida. Pintura cai na ranhura das galerias, dos leilões e dos museus. Poesia cai na ranhura das editoras de poesia, das antologias e dos prêmios. Romance cai na ranhura das livrarias, das resenhas e das listas de mais vendidos. Cada ranhura tem gente paga para promover, catalogar e preservar o que desce por ela.
Agora pense na moeda torta. A que tem o diâmetro errado para todos os tubos. Ela roda no topo da máquina, bate nas bordas e volta pra mesa, e ninguém conta, ninguém embala e ninguém guarda.
Houve um inglês que passou a vida fabricando moedas tortas de propósito. Ele gravava o poema e o desenho na mesma placa de cobre, imprimia os dois juntos e pintava cada cópia à mão. Vendeu um punhado de exemplares, morreu pobre em Londres e foi enterrado numa cova sem lápide.
Hoje, os livros dele valem fortunas e estão nos maiores museus do mundo. A obra não mudou uma linha nesses dois séculos. Mudou a máquina, que finalmente abriu uma ranhura do tamanho dela.
Nesta edição eu te mostro quem foi esse homem, por que o feed repete a mesma máquina em escala de bilhões, e onde fica o único lugar da internet que aceita moeda sem ranhura.
Continue lendo. ↓
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I O Que Eu Vi
A placa de cobre que nenhuma loja sabia vender
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William Blake nasceu em Londres em 1757, filho de um comerciante de meias, e aprendeu o ofício de gravador aos catorze anos. Gravar, naquele tempo, era trabalho de artesão contratado: você copiava o quadro de outra pessoa numa chapa de metal para ele virar ilustração de livro.
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Em 1788, Blake inventou um processo próprio, que ele chamou de illuminated printing (impressão iluminada, em referência aos manuscritos medievais pintados à mão). Ele escrevia o poema ao contrário numa placa de cobre, com um verniz resistente ao ácido, desenhava as figuras na mesma placa e mergulhava tudo no banho. O ácido comia o metal em volta, e texto e imagem saíam em relevo, prontos para imprimir juntos.
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Depois, Blake e a mulher, Catherine Blake, coloriam cada folha com aquarela. Nenhuma cópia saía igual à outra.
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Foi assim que nasceram Songs of Innocence, em 1789, e Songs of Innocence and of Experience, em 1794. O poema "The Tyger" (O Tigre), que hoje cai em prova de literatura no mundo inteiro, saiu dessas placas.
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Agora faça a conta do livreiro de 1794. O objeto na mão dele era livro? Tinha poema, mas custava como gravura. Era gravura? Tinha texto demais para pendurar na parede. Era pintura? Vinha em série. O livreiro não sabia em que prateleira pôr, o crítico não sabia em que coluna resenhar, o colecionador não sabia em que gaveta guardar.
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Blake produziu, ao longo da vida, menos de trinta exemplares completos de Songs of Innocence and of Experience, segundo o levantamento do William Blake Archive, projeto da Biblioteca do Congresso americano e de universidades como Rochester e Carolina do Norte. Vendeu a maioria para um círculo de poucos amigos e patronos.
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Em 1809, ele alugou o andar de cima da loja do irmão e montou uma exposição individual. Quase ninguém foi. O único jornal que resenhou, o The Examiner, publicou em 1809 um texto de Robert Hunt que chamava Blake de "um lunático infeliz".
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Blake morreu em 12 de agosto de 1827, em Londres, pobre, e foi enterrado numa cova comum, sem marcação, no cemitério de Bunhill Fields. O local exato só foi identificado em 2018, quando a Blake Society instalou uma lápide com o nome dele.
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A obra de Blake desceu pela máquina e voltou pra mesa, porque tinha o diâmetro de duas moedas ao mesmo tempo.
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II O Mecanismo
O feed é um cofrinho com bilhões de ranhuras
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Repare no que salvou Blake: a máquina mudou. No século XIX, poetas e pintores ingleses como Dante Gabriel Rossetti redescobriram as placas, a crítica criou a categoria "artista visionário", e os museus ganharam uma ranhura com o formato exato dele. A obra ficou parada; o tubo veio até ela, décadas depois do enterro.
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O feed repete a mesma engenharia, só que com uma velocidade que Blake nunca enfrentou. Cada plataforma é um separador de moedas com ranhuras declaradas: vídeo vertical de até um minuto numa, carrossel de dez telas em outra, texto curto com gancho na primeira linha em outra ainda. O algoritmo mede o diâmetro da peça nos primeiros segundos e decide em que tubo ela desce.
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Peça que cabe desce, ganha contagem e circula. Peça torta roda no topo e volta pra mesa em menos de um dia.
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O experimento de Salganik mostrou a segunda metade do problema. Dentro de cada tubo, quem desce primeiro puxa a fila, e a vantagem inicial vira desigualdade grande no fim. A máquina seleciona o formato certo e, dentro dele, amplifica o acaso dos primeiros cliques.
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“Preciso criar um sistema, ou serei escravizado pelo de outro homem.”
William Blake · Jerusalem, 1804
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Blake escreveu essa frase na boca de Los, o ferreiro mítico do poema, e ela funciona como diagnóstico do criador em qualquer século. Quem escreve dentro do sistema de outro aceita o diâmetro que o outro escolheu.
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Olha o custo prático para quem escreve hoje. Um ensaio de dois mil caracteres que mistura história, ciência e opinião escapa do vídeo, do carrossel e do gancho de doze palavras. O autor tem duas saídas: lixar a moeda até ela caber, cortando o que a tornava valiosa, ou jogar e assistir ela voltar pra mesa.
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A maioria lixa. E a peça lixada desce pelo tubo com o mesmo formato de outras dez mil, disputando o mesmo segundo de atenção de quem rola a tela.
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Nota do HC
Eu vejo criadores bons passarem anos lixando a própria moeda para caber na ranhura da temporada, e cada troca de formato da plataforma apaga o trabalho de lixar do ano anterior. Acho um desperdício de talento maior que qualquer prejuízo financeiro. A peça que você só sabe fazer do seu jeito merece um lugar onde o jeito dela seja aceito de saída.
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Todo feed mede o diâmetro da peça antes de ler uma linha dela.
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